Newsletter Setembro 2026

As grandes empresas tecnológicas e as grandes petrolíferas estão a aliar-se

Olá!

Num momento em que acompanhamos a acampada e mobilizações em Madrid pelo direito à habitação e assistimos à solidariedade coletiva e resiliência a impasses legislativos e chuva, recordamo-nos de como as lutas por justiça social são simultaneamente múltiplas e comuns.

O site causasderaiz.org e o mapa dos conflitos ambientais em Portugal também mostram isso. Desde projetos para construção de parques eólicos, minas ou data centers, o mapa mostra lutas de norte a sul (incluindo Madeira e Açores) e quais têm uma petição ou consulta pública a decorrer. Como referem as autoras do site “cada ponto é um lugar concreto, uma comunidade que resiste e uma forma de agir” e já são mais de 100.

A luta por justiça social e climática continua, de Portugal a Madrid e pelo mundo.

Até breve!

Nota: Todas as palavras sublinhadas são links externos, fontes de notícias, estudos, ou outras referências.

As grandes empresas tecnológicas e as grandes petrolíferas estão a aliar-se

As grandes empresas tecnológicas como a Microsoft, Amazon e Google estão a recorrer à construção de centrais a gás fóssil para alimentar a expansão dos seus centros de dados. A tendência surge num momento em que a União Europeia pretende triplicar a capacidade dos centros de dados europeus nos próximos cinco a sete anos, apesar da pressão que estas infraestruturas exercem sobre as redes elétricas, o consumo de água e as comunidades locais.

O Corporate Europe Observatory denuncia uma aproximação crescente entre as empresas tecnológicas e gigantes petrolíferas como a ExxonMobil, Chevron e Eni, que promovem a captura e armazenamento de carbono como uma forma eficaz de reduzir o impacto dos centros de dados.

Porém, a realidade mostra-nos que a eficácia dessa tecnologia (captura e armazenamento de carbono), é muito baixa. Os projetos de captura de carbono têm falhado repetidamente, são dispendiosos, consomem muita energia e envolvem riscos de fugas, acidentes e sismos associados ao armazenamento subterrâneo.

Corporate Europe Observatory – 31/08/2026

Aquecimento global está a quebrar a ligação entre dois grandes oceanos

Um estudo publicado na revista Nature Communications concluiu que a ligação climática entre os oceanos Pacífico e Índico tropicais se alterou profundamente nas últimas décadas.

Durante séculos, as mudanças na circulação atmosférica do Pacífico influenciaram de forma relativamente previsível as temperaturas do Índico, com consequências para a chuva e outras condições climáticas em regiões densamente povoadas de África, Ásia e Austrália. Contudo, desde meados do século XX, o Índico aqueceu enquanto a circulação atmosférica do Pacífico se fortaleceu, invertendo a relação tradicional entre os dois oceanos.

A única perturbação comparável ocorreu entre 1810 e 1850, após grandes erupções vulcânicas como a do monte Tambora, em 1815, que provocaram um arrefecimento temporário. Os cientistas alertam que esta mudança pode reduzir a capacidade de prever o clima com antecedência e obrigar à revisão das estratégias de gestão de riscos climáticos e dos recursos hídricos.

Science Alert- 29/08/2026

Apostas sobre ondas de calor e catástrofes climáticas geram críticas nos EUA

Plataformas norte-americanas de mercados de previsão, como o Kalshi e Polymarket, estão a permitir apostas sobre fenómenos meteorológicos e consequências das alterações climáticas, incluindo ondas de calor, temperaturas diárias, secas e a gravidade de eventos extremos.

A Kalshi registou um crescimento de 500% nas previsões relacionadas com tempo e clima no último ano, atingindo um mercado avaliado em 1,1 mil milhões de dólares, e estabeleceu uma parceria com a empresa proprietária do Weather Channel para validar os resultados das apostas.

Cientistas, vítimas de catástrofes e especialistas em clima criticam, contudo, a transformação de tragédias em entretenimento e oportunidades de lucro. Alertam para a desumanização dos impactos das alterações climáticas, para possíveis incentivos perversos.

The Guardian – 02/09/2026

Mota-Engil assina contrato com a Exxon para projeto de gás fóssil em Moçambique

A Mota-Engil África, em consórcio com a italiana Bonatti, assinou um contrato de 207 milhões de dólares para executar os trabalhos iniciais de um projeto de exploração de gás natural na península de Afungi, em Cabo Delgado, em Moçambique.

A empreitada integra a Área 4 da Mozambique Rovuma Ventures, liderada pela ExxonMobil, e está ligada às reservas de gás da Bacia do Rovuma.

Os trabalhos incluem movimentação de terras, construção da segunda fase do Pioneer Camp e do Operational Camp, instalação de infraestruturas complementares e operação e manutenção dos acampamentos. A obra começa de imediato e terá uma duração prevista de 27 meses.

Dinheiro Vivo – 07/09/2026

Volkswagen vende fábrica na Alemanha para produção de armamento

A Volkswagen chegou a acordo para vender a fábrica de Osnabrück à sociedade de investimento israelita Aurelius. A unidade, onde a produção automóvel deverá terminar no verão de 2027, será transformada num centro dedicado a “soluções de segurança e defesa”, com a participação da Rafael Advanced Defense Systems, fabricante israelita do sistema de defesa aérea Iron Dome. Está prevista a produção de sistemas e componentes destinados à Alemanha e a outros países europeus.

Segundo os termos anunciados, a Aurelius ficará com uma participação maioritária na fábrica e a Baixa Saxónia com uma posição minoritária, embora os detalhes do negócio ainda estejam por concluir. A reconversão tem provocado contestação entre trabalhadores, ativistas e partidos da oposição, que defendem a manutenção de uma produção exclusivamente civil e criticam a cooperação com uma empresa israelita.

Middle East Monitor – 07/09/2026

Expansão da inteligência artificial impulsiona produção de “químicos eternos”

As maiores fabricantes mundiais de substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas (PFAS), conhecidas como “químicos eternos”, estão a preparar aumentos de produção para responder à procura gerada pela inteligência artificial.

Um estudo da organização ChemSec indica que quase todas as dez principais empresas do setor planeiam expandir operações na Europa, Ásia e América do Norte, impulsionadas pelo uso de PFAS no fabrico de semicondutores e em sistemas avançados de refrigeração de centros de dados. Empresas como Daikin, Arkema e Chemours anunciaram novos investimentos, enquanto outras apontam também as baterias de iões de lítio como um mercado em crescimento.

A expansão preocupa especialistas e organizações ambientais, uma vez que os PFAS praticamente não se degradam no ambiente e têm sido associados a cancro, doenças hepáticas e renais, colesterol elevado e malformações congénitas. Os críticos receiam que o aumento da produção dificulte as tentativas de restringir estas substâncias na Europa, no Reino Unido e em algumas regiões dos Estados Unidos, além de poder gerar elevados custos futuros de descontaminação e processos judiciais.

The Guardian – 14/09/2026

Apenas identificamos eventos extremos que tenham causado mortes e/ou destruição de casas e/ou levado à evacuação de milhares de pessoas mas os eventos extremos sucedem-se em todo o mundo. Nesta página de youtube podes acompanhar vídeos de vários outros eventos extremos. 

África

  • Cheias, na Tunísia, alagaram estradas e casas, interrompendo também os serviços de electricidade e internet
  • Na Líbia, pelo menos 5 pessoas morreram em cheias, sendo também declarado o estado de emergência
  • Na Nigéria, cheias alagaram 14 vilas e mataram 2 pessoas

Europa

  • Cheias em Barcelona e Valência provocaram 1 morto
  • Mais de 700 pessoas foram evacuadas, na sequência de fogos que afectaram 4 cidades na Turquia
  • Na Rússia, pelo menos 14 pessoas morreram na sequência de uma avalanche
  • Mais de 700 pessoas foram evacuadas, na Croácia, devido a um incêndio

América

  • No Brasil, em São Paulo, mais de 100 pessoas foram evacuadas depois de cheias terem inundado várias localidades
  • Uma tempestade que atravessou o estado de Rio Grande do Sul, no Brasil, matou 4 pessoas, deixou mais de 4000 pessoas desalojadas, destruiu mais de 30 casas e deixou mais de 800 casas alagadas
  • Em Toronto, uma tempestade de chuva, ventos fortes e granizo deixou milhares de pessoas sem electricidade
  • No Novo México, chuvas fortes provocaram inundações e mataram 3 pessoas
  • No Chile, uma das zonas mais secas do planeta ficou coberta de neve

Ásia e Oceania

  • Na China, a passagem de um tufão matou, pelo menos, 1 pessoa e deixou 10 desaparecidos e a meio do mês, chuvas torrenciais obrigaram à evacuação de mais de 30 000 pessoas
  • Na Indonésia, uma pessoa morreu e 4 ficaram feridas na sequência de cheias
  • No Japão mais de 1500 pessoas foram evacuadas e 41 pessoas ficaram feridas, depois de chuvas torrenciais
  • Na Tailândia, cheias mataram, pelo menos, 8 pessoas e afectaram mais de 500 000 casas
  • Na Índia, chuvas fortes provocaram a morte de 3 pessoas

Novas centrais a gás nos EUA quase duplicaram em seis meses, devido aos centros de dados

A América do Norte quase duplicou a capacidade de produção elétrica a gás destinada diretamente a centros de dados, segundo uma análise da Global Energy Monitor.

O país contabiliza agora 189 gigawatts (GW) de capacidade a gás nas fases de anúncio, pré-construção ou construção para responder ao crescimento da procura de eletricidade associado à expansão da inteligência artificial. No total, a capacidade a gás em desenvolvimento aumentou 50% em seis meses, para 378 GW, o equivalente a um terço do total mundial. Se todos os projetos avançarem, a frota norte-americana de centrais a gás poderá crescer cerca de dois terços, com um custo estimado superior a 647 mil milhões de dólares.

O Texas lidera esta expansão, com 122 GW em desenvolvimento, dos quais 77 GW estão previstos para abastecer diretamente centros de dados. A capacidade em construção nos Estados Unidos aumentou 76%, permitindo ao país ultrapassar a China como principal construtor de centrais a gás.

Global Energy Monitor – Agosto de 2026

Os oleodutos e gasodutos abandonados continuam a deitar toneladas de microplásticos no oceano todos os anos

Oleodutos e gasodutos abandonados após a desativação de projetos de petróleo e gás continuam a libertar microplásticos para o oceano, alerta um estudo da Universidade de Plymouth.

Na plataforma continental do Reino Unido, os investigadores estimam que estas estruturas possam gerar entre 4,5 e 500 toneladas de microplásticos por ano, dependendo das condições ambientais — um volume que, no cenário mais elevado, supera as antigas descargas anuais provenientes de produtos cosméticos.

O estudo calcula ainda que cerca de 121 mil toneladas de plástico poderão permanecer no fundo do Mar do Norte.

A análise de amostras de oleodutos deixados durante 22 anos no campo petrolífero de Brent revelou fissuras e fragmentação provocadas pela areia, pelas correntes e pelos organismos marinhos. Embora o revestimento de betão reduza o desgaste, não impede a degradação a longo prazo.

Science Alert – 30/08/2026

Resumo do relatório das Nações Unidas sobre 1.5ºC

Um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUMA) admite que o mundo deverá ultrapassar em breve o limite de 1,5 °C de aquecimento global.

Mesmo com a aplicação integral dos atuais compromissos nacionais e das metas de neutralidade carbónica, o aumento máximo da temperatura poderá atingir 1,8 °C, enquanto as políticas existentes apontam para mais de 2 °C.

O documento defende uma transição rápida para longe dos combustíveis fósseis, o reforço das energias renováveis — que deverão representar 60% a 70% da eletricidade mundial até 2030 — e cortes nas emissões de metano, nomeadamente na agricultura.

O relatório também salienta ainda que a remoção de dióxido de carbono da atmosfera, através da reflorestação ou de tecnologias emergentes, não será suficiente para reverter significativamente o aquecimento e não pode justificar a continuação do uso de combustíveis fósseis.

O documento destaca também a necessidade de transformar a agricultura, reduzir o consumo de carne e laticínios e responsabilizar setores como os combustíveis fósseis, a banca e as grandes empresas tecnológicas pelo agravamento da crise climática.

Nações Unidas – 02/09/2026

Relatório: como os planos de expansão de aeroportos ultrapassam os limites de emissões de carbono dos aeroportos europeus

Um relatório conclui que os planos de expansão dos 20 maiores aeroportos europeus analisados, distribuídos por dez países, são incompatíveis com o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,7 °C.

Mesmo considerando o uso de “combustíveis sustentáveis” para a aviação e aeronaves mais eficientes, todos os aeroportos ultrapassariam entre duas e três vezes a sua parcela do orçamento de carbono até 2050.

Lisboa e Porto registam os maiores excessos, com 2,8 vezes o limite, enquanto o aeroporto de Málaga esgotaria o seu orçamento em apenas oito anos. No total, as expansões previstas acrescentariam 225 milhões de toneladas de CO₂ às emissões atuais.

Entre os casos destacados estão a terceira pista de Heathrow, na região de Londres, a expansão de 12 aeroportos espanhóis e o aumento previsto das emissões em Dublin. Em Portugal, um novo aeroporto em Lisboa poderia gerar mais 18 milhões de toneladas de CO₂, o equivalente a metade das emissões anuais do país.

Transport & Environment – 15/09/2026

A cada três dias é assassinado um activista ambiental

Pelo menos 124 activistas ambientais foram mortos em 2025 por se oporem à destruição de florestas, rios, terras agrícolas e outros ecossistemas, segundo um relatório da Global Witness.

O número, que corresponde a uma morte a cada três dias, deverá representar apenas uma parte do total devido à dificuldade de documentar casos em zonas de conflito ou em países com informação mais restrita.

A Colômbia foi o país mais letal, com 39 mortes, seguida do Brasil, com 26. Honduras e Filipinas registaram 12 homicídios cada. Mais de três quartos das vítimas eram agricultores de pequena escala, povos indígenas ou comunidades afrodescendentes, e mais de um terço dos casos tinha alegadas ligações ao crime organizado ou a assassinatos por encomenda.


A Global Witness alerta ainda para o aumento de ameaças, criminalização, campanhas de difamação e uso de forças militares contra ativistas, sobretudo na América Latina e na Ásia.

Desde 2012, a organização já documentou 2.375 mortes e desaparecimentos de defensores ambientais, mas considera que o número real é bastante superior.

Inside Climate News – 15/09/2026

Análise – grandes empresas concentram o poder e os lucros do sistema alimentar mundial

As 100 maiores empresas do setor agroalimentar geraram 4,5 biliões de dólares em receitas em 2022, com as dez primeiras — entre elas Walmart, Cargill, Nestlé e PepsiCo — a concentrarem 28% desse valor.

O controlo do sistema alimentar está também fortemente concentrado entre grandes gestoras de ativos: Vanguard, BlackRock e State Street detêm, em conjunto, 22% das ações destas empresas, enquanto 20 gestoras e um fundo soberano controlam 41% das participações.

Enquanto estas empresas distribuem lucros aos acionistas, a fome no mundo persiste.

Entre 2021 e 2022, apenas 20 empresas dos setores dos cereais, fertilizantes, carne e lacticínios pagaram 53,5 mil milhões de dólares aos acionistas — mais do que os 51,5 mil milhões estimados pela ONU para alimentar 230 milhões de pessoas vulneráveis.

Friends of the Eart US – Setembro de 2026

Vídeo – “Shell Shocked Land” – documentário sobre exploração de gás na Nigéria pela Shell – “Em 1995, nove ativistas nigerianos foram executados por se oporem à destruição ambiental de Ogoniland, mas, três décadas depois, a luta contra as atividades da Shell e pelos direitos da comunidade continua”.

Livro – A economia do donut, de Kate Raworth – A economista Kate Raworth propõe um modelo económico que concilia o bem-estar de todas as pessoas com os limites ecológicos do planeta.

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