Newsletter Julho 2026

Olá! Escrevemos-te mais um mês com mais um recorde de temperaturas: o passado mês de junho foi o mais quente de sempre na Europa Ocidental e o segundo mais quente de sempre a nível mundial, coincidindo e sendo exponenciado por um recorde de temperaturas da superfície do mar. Carlo Buontempo, diretor do programa Copernicus no Centro Europeu para as Previsões Meteorológicas a Médio Prazo adverte: “Com as temperaturas oceânicas nestes níveis e o El Niño no horizonte, é provável que vejamos mais recordes de temperatura serem registados nos próximos meses.” Por cá, numa tendência igualmente ascendente, estão também os lucros das petrolíferas e as transferências para paraísos fiscais.

Destacamos também a contínua repressão de ativistas pelo mundo, como a recente sentença de Prairieland mostra: Daniel Sanchez Estrada foi condenado a 30 anos de prisão por “obstruir uma investigação”. O seu “crime”? Ter transportado uma caixa de fanzines anti-fascistas depois de um protesto contra a ICE nos Estados Unidos.

Por fim, deixamos-te dois sites:

Até breve!


Nota: Todas as palavras sublinhadas são links externos, fontes de notícias, estudos, ou outras referências.

Graves violações dos direitos humanos no projeto de gás em Mozambique

Organizações da sociedade civil Justiça Ambiental (Moçambique) e Friends of the Earth Japão apresentaram, em conjunto, uma queixa no âmbito do mecanismo de reclamações da OCDE, denunciando violações graves de direitos humanos e ambientais associados ao projeto de gás natural liquefeito (LNG) em Moçambique.

Segundo a denúncia, empresas japonesas envolvidas no projeto não estão a cumprir as Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais sobre Conduta Empresarial Responsável, com foco em alegados abusos contra comunidades afetadas, falhas na compensação por realojamento, ausência de medidas para restaurar meios de subsistência e acusações de massacres atribuídos a forças de segurança ligadas à operação.

A queixa relembra também que em novembro de 2025, uma denúncia criminal foi apresentada na França contra o operador TotalEnergies e que em dezembro de 2025, agências britânicas e neerlandesas de crédito à exportação teriam recuado na sua intenção de financiamento ao projecto após reconhecerem riscos crescentes. Relembram também um relatório encomendado pelo ministério das finanças da Holanda que tinha apontado recorrentes violações contra civis por forças de segurança do projeto. Ainda em Junho surgiram notícias de que trabalhadores do projeto da TotalEnergies estavam ligados a casos de exploração sexual em Moçambique.

Friends of the Earth, Japão – 05/06/2026

A Europa apoia a exploração de minas em regiões com escassez de água

A Comissão Europeia prepara-se para rever a lei-mãe da UE de proteção da água, conhecida como Diretiva-Quadro da Água, para agilizar a autorização de minas associadas a “matérias-primas críticas” — apesar de uma análise indicar que muitos dos novos projetos se concentram em regiões que estão a secar ou já sofrem escassez hídrica.

O estudo, com base em dados de satélite da NASA e em informação da UE, aponta que mais de metade das 33 minas novas ou ampliadas previstas como “projetos estratégicos” ao abrigo do Ato das Matérias-Primas Críticas estão em áreas com tendência de agravamento da disponibilidade de água nas últimas duas décadas e que quase metade registou condições de seca nos três meses anteriores e uma parte significativa encontra-se em zonas classificadas como “stress hídrico”.

The Guardian – 20/06/2026

Tribunal da UE considera que a produção de jatos privados pode ser classificada como investimento verde

O Tribunal Geral da União Europeia decidiu que a fabricação de jatos privados não pode ser automaticamente excluída da lista de atividades consideradas ambientalmente sustentáveis, anulando uma decisão da Comissão Europeia.

Esta decisão vem na sequência de um recurso apresentado pelo fabricante francês Dassault Aviation, e o tribunal acolheu o recurso, considerando que que a pegada de carbono relevante para a decisão deve focar a operação da aeronave (e não a sua fabricação); e que a Comissão não levou suficientemente em conta a possibilidade de jatos privados serem operados com combustíveis sustentáveis. A Comissão pode recorrer da decisão no prazo de dois meses.

Reuters – 24/06/2026

A captura e armazenamento de carbono não vai resolver a nossa crise climática

Durante décadas as empresas petrolíferas têm financiado pesquisas em universidades para promover “soluções” climáticas que permitam manter o uso de combustíveis fósseis, como a captura e armazenamento de carbono (CCS).

Uma investigação da ProPublica e da Drilled afirma que defensores da CCS minimizaram evidências sobre as limitações da tecnologia ou exageraram o seu potencial, dando a entender que poderia funcionar de forma eficaz. Para a CCS atingir a escala atualmente imaginada, seriam necessários recursos quase “inimagináveis” e, ainda assim, poderia ser impossível aprisionar quantidades tão grandes de CO₂ no subsolo.

O relatório sustenta-se em projeções da Agência Internacional de Energia (AIE) e de modelos usados em avaliações da ONU.

Drilled – 25/06/2026

Maiores empresas de combustíveis fósseis planeiam aumentar a produção em 14% até 2030

Um relatório do TPI Global Climate Transition Centre, da London School of Economics, avaliou os planos de transição climática de 22 grandes empresas cotadas nos setores de petróleo e gás e de mineração diversificada. O estudo examina não apenas metas e declarações, mas também se existem planos detalhados, com prazos e recursos, para reduzir emissões em toda a operação e ao longo da cadeia.

No petróleo e gás, o maior “vazio” está na transição do modelo de negócio: entre 11 empresas que divulgam orientação de produção, a produção planeada para 2030 deve crescer 14% (de 22,90 para 26,16 milhões de barris equivalentes/dia), enquanto a produção de energia de baixo carbono não chega a ganhar escala suficiente.

London School of Economics – Junho de 2026

As ondas de calor deste verão podem fazer subir a conta do supermercado no próximo ano

Embora a inflação dos alimentos esteja a abrandar na zona euro, economistas da Oxford Economics e do Deutsche Bank alertam que as ondas de calor extremas deste verão podem ser o principal fator de risco para os preços nos supermercados em 2027.

O calor e seca podem reduzir as colheitas e aumentar os preços de frutas, legumes, cereais e outros produtos agrícolas. Estimativas da Oxford Economics e do Deutsche Bank apontam que o efeito do tempo poderá, por si só, acrescentar até cerca de 1 ponto percentual à inflação alimentar na zona euro no próximo ano, elevando a inflação para aproximadamente 3% em 2027.

Euronews – 16/07/2026

Nem mesmo os camelos estão a conseguir aguentar o aumento das temperaturas

Os camelos — conhecidos como “barcos do deserto” — estão a ser afetados pelas temperaturas extremas que atingem várias regiões da África. No nordeste da Etiópia, na região de Afar, pastores relatam que o calor está a causar feridas nas patas, olhos lacrimejantes e queimaduras pela areia quente, além de maior mortalidade das crias.

Segundo um criador, apenas no último mês terão morrido oito crias devido ao calor, e o vento que antes trazia alívio passa agora a transportar calor.

A situação é descrita como ainda mais grave no Corno de África, com investigação recente a apontar que a mortalidade ligada à seca afeta cerca de 46% dos agregados familiares que possuem camelos na região da Somália, concentrando-se sobretudo no norte (com taxas muito elevadas em áreas como Sool).

BBC – 23/07/2026

Campo de gás da BP obriga pescadores do Senegal a abandonarem a zona

A exploração de gás do campo Grand Tortue Ahmeyim (GTA), da BP, em águas ao largo de Saint Louis, no norte do Senegal é apresentada pelo governo como uma oportunidade para gerar receitas com exportações para a Europa e acelerar o desenvolvimento nacional. No entanto, especialistas e pescadores locais afirmam que se trata de um investimento de alto risco, sobretudo num contexto de queda estrutural da procura de gás na UE, e sustentam que os principais custos podem recair sobre as comunidades costeiras que dependem da pesca.

Os habitantes dizem que o projeto colocou áreas tradicionais de pesca fora de limites, afetando diretamente os meios de subsistência, com relatos de uso de luzes noturnas que atrairiam os peixes para zonas controladas pelas operações e impediriam capturas. Autoridades municipais também questionam se o benefício para a região será real, lembrando que o Senegal tem uma dívida elevada e que este projecto exigirá grandes investimentos em infraestruturas, enquanto persistem disputas políticas sobre a “justiça” dos termos do acordo.

Desmog – 24/07/2026

Apenas identificamos eventos extremos que tenham causado mortes e/ou destruição de casas e/ou levado à evacuação de milhares de pessoas mas os eventos extremos sucedem-se em todo o mundo. Nesta página de youtube podes acompanhar vídeos de vários outros eventos extremos. 

África

  • No Uganda, na região de Karamoja, 16 pessoas morreram de fome, na sequência de uma seca prolongada
  • Pelo menos 13 pessoas morreram, no Gana, depois de cheias terem atingindo a cidade de Accra, tendo havido mais de 400 pessoas resgatadas
  • Na Algéria, deflagaram mais de 1600 fogos que mataram 6 pessoas, no mês de Julho

Europa

  • Fogos em Espanha mataram 13 pessoas
  • Na Noruega, mais de 100 casas foram destruídas por fogos florestais
  • Em França, na região de Bordéus, fogos florestais levaram à maior evacuação desde a 2ª guerra mundial, resultando em mais de 200 000 pessoas deslocadas. Noutra região de França, tempestades mataram 2 pessoas e deixaram mais de 50 000 sem electricidade
  • Fogos na Turquia destruíram ou danificaram cerca de 55 casas

América

  • Em New Jersey, pelo menos 25 pessoas morreram numa onda de calor
  • No Texas, cheias mataram 2 pessoas e mais de 200 foram resgatadas
  • No Chile, uma tempestade matou 3 pessoas
  • Fogos florestais, no Canadá, mataram 4 pessoas e destruíram dezenas de casas, levando à evacuação de milhares de pessoas
  • Cheias no Missouri, mataram 1 pessoa e levaram à evacuação de 200 pessoas
  • No México, cheias mataram 3 pessoas
  • Uma tempestade matou 5 pessoas no Brasil

Ásia e Oceania

  • Cheias na Índia mataram, pelo menos, 41 pessoas
  • Na Malásia, cheias deslocaram mais de 100 pessoas
  • Cheias no Afeganistão mataram, pelo menos 20 pessoas havendo ainda mais de 100 pessoas desaparecidas
  • Na China umas cheias mataram 10 pessoas
  • Na Coreia do Sul, cheias e deslizamentos de terras mataram 17 pessoas e mais de 100 000 foram evacuadas
  • Cheias no Bangladesh mataram 51 pessoas
  • Na Rússia, umas cheias causaram o rompimento de uma barragem que matou 3 pessoas

Quase todas as crianças do mundo estão expostas a riscos climáticos

Segundo as Nações Unidas, quase todos as crianças do mundo estão expostos a pelo menos um risco climático e as estimativas apontam que 1,8 mil milhões de crianças correm perigos ligados a secas e 1,2 mil milhões estão ameaçadas por calor extremo.

A agência da ONU alerta que os efeitos não se limitam a um único fenómeno, pois muitas crianças enfrentam “cascatas” de perigos sobrepostos, com grande impacto nos sistemas de saúde, serviços sociais e segurança alimentar.

Segundo o relatório 1,1 mil milhões de crianças no mundo enfrentam pelo menos três riscos climáticos simultâneos, e 662 milhões estão em zonas de risco de tempestades tropicais, 337 milhões de inundações fluviais e 33 milhões de inundações costeiras.

Em 2024, cerca 242 milhões de crianças em 85 países tiveram a escolaridade interrompida por eventos climáticos, com os países mais vulneráveis indicados como Somália, Madagáscar, Mianmar, Camboja e Paquistão.

Reuters – 16/06/2026

Os investimentos financeiros dos principais juízes da UE suscitam questões preocupantes

Uma investigação do Investigate Europe revela que, no Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), uma parte significativa de juízes e do Ministério Público europeu declarou interesses financeiros privados, incluindo participações em empresas que o tribunal pode vir a regular. O trabalho aponta que mais de 40% dos atuais magistrados declararam algum tipo de interesse, com posições em setores como petróleo e gás, imobiliário e infraestruturas, além de empresas como AstraZeneca, Airbus, Amazon e Boeing.

A investigação sustenta ainda que há casos em que juristas teriam participado em processos envolvendo companhias ou concorrentes com as quais tinham interesses, levantando preocupações sobre conflitos de interesses.

O relatório também destaca falhas e lacunas na transparência das declarações públicas, além de um sistema de distribuição de processos que, segundo a investigação, não passa por escrutínio externo.

A investigação inclui exemplos específicos, como o advogado-geral Juliane Kokott, que tem participações em empresas farmacêuticas enquanto emitiu pareceres e participou em processos no setor, e referências a decisões em que membros tinham relações financeiras com partes do litígio.

Investigate Europe – 30/06/2026

Aumento do “turismo aéreo” poderá provocar aumentos nas rendas na Europa de até 250 € por ano

Um estudo encomendado pela T&E (Transport & Environment) e elaborado pela New Economics Foundation (NEF) conclui que o crescimento do turismo impulsionado por voos está a agravar uma crise habitacional em vários países da Europa, afetando sobretudo famílias de baixos rendimentos.

A análise projeta que, entre 2026 e 2031, as rendas anuais em cinco das maiores economias europeias dependentes do turismo possam aumentar até 250 euros por ano devido ao fluxo de turistas por via aérea.

A Irlanda é apontada como o caso com maior subida absoluta, enquanto Grécia, Portugal e Espanha devem registar os maiores aumentos percentuais, com elevações estimadas na ordem dos 160 a 220 euros — num cenário em que os rendimentos não acompanham a subida do custo das casas.

Além do impacto na habitação, a investigação afirma que o setor aéreo responde por cerca de 52% das emissões diretas do turismo a nível global, e que na Europa as emissões associadas às chegadas internacionais por via aérea deverão aumentar mais de 60% entre 2016 e 2030.

Transport & Environment – 29/06/2026

O colapso dos ecossistemas ameaça a segurança nacional do Reino Unido, alertam os chefes dos serviços secretos

Um relatório dos serviços secretos britânicos prevê que o colapso iminente de ecossistemas globais poderá desencadear, nos próximos anos, uma crise nacional ligada à segurança e à alimentação.

A versão divulgada, com 14 páginas e trechos censurados, alerta para possíveis quebras de colheitas, surtos de doenças e desastres naturais mais intensos, apontando que isso poderia levar a escassez alimentar severa (podendo começar em até cinco anos), aumento de preços, instabilidade política, deslocações e até riscos de conflito entre países que competem por recursos cada vez mais escassos.

Apesar das alertas, o governo britânico recusou publicar integralmente o relatório, alegando que a versão censurada já traz informação suficiente.

Novara Media – 10/07/2026

Mais de metade do consumo de minerais raros é feita pelas indústrias de IA e de guerra

A indústria global de mineração defende que é necessário extrair mais minerais raros e “críticos” para enfrentar a crise climática. Porém, um novo relatório do Oakland Institute afirma que a maior parte do aumento da procura por esses materiais não está ligada diretamente à transição energética por fontes renováveis.

Segundo o estudo, mais de 70% da procura atual vem de setores nas áreas de inteligência artificial e defesa.

O relatório também relaciona a corrida aos minérios ao aumento de conflitos: entre 2015 e 2022, teriam ocorrido mais de 36 mil disputas ligadas à mineração em milhares de locais no mundo. O documento aponta ainda que investimentos em infraestrutura de IA e em tecnologias militares estão entre as fontes de procura que mais crescem.

Inside Climate News – 14/07/2026

Alterações climáticas já reduzem a produção agrícola

Um estudo do Instituto de Análise Económica, em Barcelona, indica que mais de 640 milhões de pessoas vivem hoje em áreas agrícolas onde a capacidade máxima anual de alimentar já caiu mais de 10% em relação a há 30 anos, e quase 690 milhões vivem em regiões que atualmente conseguem alimentar, por ano, milhares de pessoas a menos do que no passado.

O impacto é mais forte nos locais em que a agricultura tem menos proteção estrutural, especialmente nas áreas de cultivo dependentes das chuvas: cerca de 20% das terras agrícolas dependentes da chuva para irrigação, já perderam pelo menos 10% de produtividade, enquanto quase 5% registaram quedas superiores a 30%.

O estudo destaca ainda “hotspots” que concentram grande parte do dano: apenas 5% das terras agrícolas respondem por 35% de todas as perdas. A tendência deve piorar até meados do século, quando quase metade da população mundial pode viver em zonas agrícolas em declínio.

As perdas também são desigualmente distribuídas, com regiões tropicais a sofrer mais.

CADI – Julho de 2026

Podcast – Podcast do Transnational Institute, «State of Power» – compilação de investigadores e ativistas que abordam os desafios globais, partilham a sua investigação e discutem alternativas ao status quo neoliberal

Livro – O Impossível capitalismo verde, de Daniel Tanuro – a promessa de um “capitalismo verde” é incompatível com a necessidade real de travar a crise climática. O autor revela os limites e as contradições do capitalismo verde

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