Newsletter Outubro 2026

Em linha com todos os recordes de temperaturas a que temos assistido nos últimos anos, um estudo da Organização Meteorológica Mundial (WMO) concluiu que os níveis de gases com efeito de estufa na atmosfera chegaram ao valor mais alto de sempre em 2025. Por isso, podemos esperar continuar a ler títulos como “O segundo setembro mais quente já registrado, com temperaturas globais permanecendo acima de 1,5°C” (Copernicus).

Mas algo parece ter mudado e, um pouco por todo o mundo, movimentos sociais pelo direito à habitação, contra o elevado custo de vida, governos autoritários e a deterioração da democracia têm saído à rua e feito frente a um sistema que está a condenar o nosso futuro. A Linha Vermelha apoia as acampadas de Lisboa e Porto assim como as várias manifestações que têm surgido em vários pontos do país, e está solidária com todas as pessoas que foram agredidas ou detidas quando exerciam o seu direito constitucional à manifestação.

Estamos também solidárias com a população de Covas do Barroso que, pela força da ação coletiva, bloquearam os trabalhos da Savannah nos baldios e conseguiram que as máquinas fossem retiradas. Não à mina, sim à vida!

Por último, queremos dizer-te que lançámos uma carta aberta à REN, responsável pelo projeto para a construção de dois novos troços de gasodutos entre a Figueira da Foz e Cantanhede e Celorico da Beira e Zamora.

Assina a carta aberta contra os gasodutos CelZa!

Este é o próximo passo na luta para travar este projeto. Assina, partilha e se te quiseres juntar a nós para tricotar em público e divulgar a carta escreve-nos para info@linhavermelha.org. Para acompanhares o projeto e receberes atualizações (em breve pode abrir a consulta pública ao projeto) podes subscrever esta mailing list.

Até breve!


Nota: Todas as palavras sublinhadas são links externos, fontes de notícias, estudos, ou outras referências.

Os derrames sistemáticos das grandes petrolíferas estão a envenenar a costa de Angola e as suas comunidades

Uma investigação publicada pela Voxeurop denuncia derrames de petróleo recorrentes e não declarados ao largo da costa de Angola ao longo de 13 anos. Através da análise de imagens de satélite foi possível identificar a poluição na área do Bloco 15, operado pela ExxonMobil e apoiado pela BP, Eni, Equinor e Sonangol.

Os investigadores estimam que os derrames acumulados possam variar entre 89.538 e 4.476.908 barris, devido à dificuldade de determinar a espessura do petróleo sem recolhas físicas.

Moradores e profissionais de saúde relatam problemas como infeções cutâneas, náuseas e problemas gastrointestinais, além de prejuízos para a pesca e a agricultura. A investigação descreve ainda pescadores recrutados para limpar petróleo sem contratos formais nem seguro de saúde.

VoxEurope – 28/09/2026

Portugal: Dinheiro para a guerra, sim; habitação, saúde e transportes ficam para trás

O parecer do Tribunal de Contas sobre a Conta Geral do Estado de 2025 aponta uma execução desigual do investimento público: apesar de este ter ficado 2.294 milhões de euros abaixo do previsto, a Defesa excedeu o orçamento em 695 milhões, num ano em que Portugal cumpriu a meta da NATO de gastar 2% do PIB em defesa.

Em sentido contrário, os transportes registaram menos 1.006 milhões de euros de investimento do que o programado, a habitação e infraestruturas coletivas menos 417 milhões e a saúde menos 384 milhões.

O Tribunal identificou ainda falhas na prestação de contas, incluindo erros de pelo menos 331 milhões de euros e a omissão de 22.543 milhões relativos à dívida de entidades públicas.

Mais de 2 mil milhões de euros do PRR continuavam por chegar aos beneficiários finais, enquanto o Portugal 2030 apresentava uma execução de 14,7%. Pela terceira vez consecutiva, a Conta Geral do Estado não pôde ser certificada, e o Tribunal emitiu 57 recomendações ao Governo e à Assembleia da República.

Página Um- 30/09/2026

Centros de dados em Portugal: sem limites de uso de água ou energia

A expansão dos centros de dados pode pressionar fortemente o sistema energético português. Segundo a associação Zero, os pedidos de ligação já apresentados poderão exigir até 41 GW de potência — mais de quatro vezes a atual procura de ponta.

Se essa necessidade fosse suprida com energia solar, estima a associação, os painéis ocupariam cerca de 3% do território nacional, o consumo de água equivaleria ao de toda a Área Metropolitana de Lisboa e seria necessário multiplicar por 40 a capacidade de armazenamento em baterias prevista no Plano Nacional de Energia e Clima.

A Zero alerta que o Plano Nacional para os Centros de Dados, aprovado em abril, exige a comunicação dos consumos, mas não estabelece limites vinculativos de energia e água nem critérios obrigatórios de eficiência. A associação defende que, antes de avançar com novos projetos, o país avalie a sua utilidade social e defina quais pretende aceitar, tendo em conta os recursos escassos, a integração no território e o envolvimento das comunidades.

Público – 29/08/2026

20% dos glaciares suíços desapareceram em cinco anos

Os glaciares suíços perderam 5,5% do seu volume de gelo em 2026, a segunda maior redução anual registada. Com ondas de calor intensas e pouca neve no inverno, a perda acumulada desde 2021 chegou a 19,4%.

Os investigadores observaram que alguns glaciares estão a desaparecer e que outros colapsam também por dentro, à medida que cursos de água subterrâneos abrem cavidades no gelo.

The Guardian – 01/10/2026

As antigas minas de ouro, de Jales continuam a contaminar

Um estudo internacional sobre as antigas minas de ouro de Jales, em Vila Pouca de Aguiar, concluiu que a contaminação das águas persiste mais de 30 anos após o encerramento da exploração.

Em amostras recolhidas em 2024, 53% ultrapassaram o limite de arsénio para água potável, com níveis até 5,7 vezes superiores; também foram detetados ferro, manganês e outros contaminantes.

Os investigadores assinalam potenciais riscos para a saúde em caso de consumo prolongado dessas águas, mas o estudo não demonstra que a população as esteja a consumir nem que tenham ocorrido doenças associadas.

Página Um – 13/10/2026

A água da torneira já não é potável numa aldeia norueguesa, resultado da libertação de metais pesados, pelo degelo

As autoridades de Longyearbyen, no arquipélago norueguês de Svalbard, mantêm o aviso para que os cerca de 2.600 habitantes não bebam água da torneira, devido à presença de metais na principal fonte de abastecimento da localidade. Em setembro do ano passado, os níveis de manganês chegaram a 25 vezes o valor recomendado pelas autoridades de saúde norueguesas. Embora tenham diminuído, sulfato e níquel também ultrapassaram os limites recomendados, pelo que a restrição continua em vigor.

Investigadores apontam o degelo do permafrost como possível causa: a exposição de rochas com pirite à água e ao oxigénio pode gerar acidez e libertar metais para os cursos de água que alimentam o lago Isdammen. Longyearbyen aquece entre cinco e sete vezes mais depressa do que a média mundial. A população pode obter água purificada num ponto de distribuição local, enquanto cientistas alertam que o problema poderá antecipar riscos para outras comunidades do Ártico com condições geológicas semelhantes.

The Guardian – 19/10/2026

Apenas identificamos eventos extremos que tenham causado mortes e/ou destruição de casas e/ou levado à evacuação de milhares de pessoas mas os eventos extremos sucedem-se em todo o mundo. Nesta página de youtube podes acompanhar vídeos de vários outros eventos extremos. 

África

  • No Zimbabué, várias tempestades levaram à declaração de desastre, depois de afectarem mais de 10 000 casas numa província, cerca de 90% das casas. Os sistemas de esgoto também foram afectados assim como a distribuição de electricidade
  • Em Marrocos, tempestades inundaram várias casas, cortaram estradas e isolou comunidades
  • No Gabão, uma plataforma de extracção de petróleo afundou, causando, pelo menos 3 mortes. Apesar de não ter sido causado por um evento extremo, deixamos esta informação aqui
  • No Egipto, cheias mataram 1 pessoa e outra está desaparecida ao mesmo tempo que várias estradas ficaram bloqueadas
  • No Congo, cheias afectaram mais de 20 000 pessoas e destruíram várias casas

Europa

  • Dois tornados, na Itália, destruíram uma casa, danificaram vários carros e infraestruturas
  • Na Turquia, chuvas fortes mataram 3 pessoas e inundou casas e estradas. Umas semanas depois, um tornado matou 4 pessoas
  • Uma tempestade matou 2 pessoas e deixou 800 000 casas sem electricidade no Reino Unido
  • Em Espanha cheias matou 5 pessoas, obrigou à evacuação de mais de 2000 pessoas e deixou mais de 800 000 pessoas em confinamento. Em outra zona, cheias mataram 2 pessoas e inundou várias casas
  • Na Grécia, cheias mataram uma pessoa e deixaram um rasto de destruição. Semanas depois, outra zona do país foi afectada por cheias que inundou casas, pontes e várias infraestruturas

América

  • No Chile, milhares de pessoas foram evacuadas, depois de ter chovido 9 vezes mais do que é normal, levando a ser decretado o estado de emergência
  • No Panamá, um terramoto causou mais de 25 feridos, danificou centenas de casas e provocou deslizamentos de terras
  • No Paraguai uma tempestade de granizo (com pedras entre 10 a 15 cm’s de diâmetro) provocou cortes de electricidade, evacuações e danificou várias infraestruturas. Umas semanas depois cheias obrigaram à evacuação de centenas de famílias
  • No Brasil, uma tempestade matou uma pessoa
  • Na Colômbia, fortes chuvas mataram uma pessoa e afectou centenas. Dezenas de casas e comércios foram inundados
  • No Equador, cheias mataram 3 pessoas e afectaram mais de 20 000 pessoas
  • Na Argentina, cheias mataram 2 pessoas e obrigaram à evacuação de mais de 2000 pessoas

Ásia e Oceania

  • Na Indonésia, incêndios destruíram quase 300 casas, obrigaram à evacuação de centenas de pessoas e deixaram um cenário apocalíptico nos céus
  • No Nepal, cheias deixaram 5 pessoas desaparecidas e destruíram casas e pontes
  • Em Taiwan, um tufão matou uma pessoa e deixou mais de 500 feridos
  • Na Tailândia, cheias afectaram mais de 3 milhões de pessoas
  • Na Síria, cheias mataram 5 pessoas (4 crianças) e uma ponte colapsou
  • Na Líbia, chuvas torrenciais mataram 2 pessoas e várias zonas ficaram sem electricidade
  • Na Índia, uma tempestade matou 3 pessoas, cerca de 30 casas ficaram danificadas e mais de 50 000 pessoas foram evacuadas

A agenda sobre IA e energia de Trump implica gás fóssil mais caro para a Europa

A União Europeia poderá ficar mais dependente do gás fóssil liquefeito (GNL) da América do Norte, mas essa fonte de energia pode encarecer. Um relatório da Oil Change prevê que o preço grossista do gás norte-americano suba, em média, 80% entre 2026 e 2040 face à década anterior.

A perspetiva de aumento da procura nos EUA — impulsionada pela expansão das exportações de GNL e pelo consumo de energia dos centros de dados de inteligência artificial — poderá levar à exploração de jazidas mais caras e pressionar os preços pagos pelos importadores europeus.

Oil Change – 07/10/2026

Relatório “Living Planet Index” realta uma diminuição média de 73% nas populações de vida selvagem

O relatório estima que as populações de animais monitorizadas diminuíram, em média, 73% entre 1970 e 2022. A análise abrange 35.803 populações de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes, mas não inclui plantas nem invertebrados. O valor não significa que tenham desaparecido 73% dos animais ou das espécies: metade das populações estudadas diminuiu, enquanto 43% aumentaram e 7% permaneceram estáveis.

Living Planet Index – Outubro de 2026

Pobreza e Exclusão Social em Portugal – Relatório 2026

Um relatório da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) indica que quase dois milhões de pessoas — 18,3% da população portuguesa — estavam em risco de pobreza ou exclusão social em 2025.

Embora o indicador tenha recuado face ao ano anterior, o estudo identifica situações mais graves entre alguns grupos: nas famílias monoparentais, o risco atingiu 40,7%, e a vulnerabilidade é maior em determinados territórios.

Os custos da habitação agravam significativamente o cenário: considerando essas despesas, a taxa de pobreza aumenta de 15,4% para 26,8%.

EAPN – 13/10/2026

Relatório – Centros de dados na Europa

A expansão dos centros de dados de inteligência artificial está a aumentar a pressão sobre a energia e a água na Europa. O consumo de electricidade anual do setor poderá ultrapassar 110 TWh até 2030.

Na Irlanda, os centros de dados já representam 23% do consumo de eletricidade, após um aumento de 360% na procura entre 2016 e 2026. No Reino Unido, alguns projetos procuram avançar com centrais a gás próprias, enquanto as exportações de gás natural liquefeito dos EUA para a Europa mais do que triplicaram entre 2021 e 2025.

A pressão sobre a água também gera conflitos locais, por exemplo, nos Países Baixos, a oposição pública contribuiu para o cancelamento de um centro de dados planeado pela Meta em Zeewolde. Noutro caso, uma instalação da Microsoft consumiu mais de 83 milhões de litros de água em 2021, mais de quatro vezes o valor inicialmente comunicado. Na Irlanda, os centros de dados usam cerca de cinco milhões de litros de água pública por dia, mesmo durante períodos de restrições ao consumo doméstico.

Food and Water Europe – 19/10/2026

Dezasseis anos após o acidente da Deepwater Horizon, a vida marinha em águas profundas mostra poucos sinais de recuperação

Dezasseis anos após a explosão da plataforma petrolífera Deepwater Horizon, que em 2010 libertou mais de quatro milhões de barris de petróleo no Golfo do México, a vida nas profundezas do oceano ainda não recuperou. Um novo estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, concluiu que, nos primeiros anos após o desastre, as populações de polvos, lulas, camarões e peixes-lanterna diminuíram pelo menos 60%.

Com base em levantamentos acústicos e milhares de amostras, os investigadores encontraram poucos sinais de recuperação.

Estudos anteriores detetaram compostos associados ao petróleo em lulas, polvos e ovos de peixe, com possíveis efeitos na reprodução, no desenvolvimento e na sobrevivência.

Yale Environment – 20/10/2026

Mais de 90 milhões de pessoas na Europa estão em risco de pobreza

Segundo relatório da Eurostat, os Açores foram a região portuguesa com maior proporção de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social em 2025: 21,6%, acima da média da União Europeia, de 20,9%. Seguiram-se a Madeira, com 20,5%, e o Oeste e Vale do Tejo, com 20,4%. A Grande Lisboa registou a taxa mais baixa do país, com 16%. No conjunto nacional, 18,6% da população estava em risco.

Na União Europeia, 92,7 milhões de pessoas — uma em cada cinco — encontravam-se nesta situação. Entre as 243 regiões com dados disponíveis, 24 tinham taxas de pelo menos 31,5%. A Guiana Francesa liderou, com 54,8%, seguida da Calábria, em Itália, com 45,3%, e da Sicília, com 44%. O indicador considera a exposição à pobreza monetária, à privação material e social severa ou a viver num agregado familiar com baixa intensidade de trabalho.

Eurostat – Outubro de 2026

Documentário – “Alterações climáticas e pessoas deslocadas” – as alterações climáticas deslocam diariamente milhares de pessoas, sobretudo em países pobres, e, perante a falta de proteção legal internacional, Bangladesh, a Colômbia e países do Pacífico procuram responder com realojamento, reconhecimento jurídico e solidariedade regional.

Artigo – República Democrática do Congo, a história a repetir-se em Lubumbashi – A corrida global por cobre e cobalto está a reproduzir em Lubumbashi, na República Democrática do Congo, padrões coloniais de exploração, desigualdade e exclusão, enquanto os lucros da mineração beneficiam sobretudo empresas estrangeiras.

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