O calor já causou mais de 200 000 mortes na Europa desde 2022
Como já nos temos vindo a acostumar, investigadores da Oxfam dão conta de mais um record que denuncia a disparidade de riqueza mundial: Elon Musk é o primeiro trilionário do mundo com uma fortuna que o torna mais rico que 46% da população (ou 3.8 mil milhões de pessoas). Umas semanas antes a humanidade batia outros records: os cientistas anunciaram que o mês passado foi o segundo maio mais quente desde que há registos (o primeiro lugar foi atribuído não há muito tempo, é maio de 2024).
Para quem luta por alterar este estado de coisas, as notícias não são muito boas: quatro ativistas da Palestine Action foram sentenciados a penas que chegaram aos oito anos de prisão por “atos terroristas”. E por cá a PJ efetuou buscas na casa de ativistas pela libertação da palestina, afirmando que “os visados pela investigação são suspeitos da prática dos crimes de associação criminosa, instigação pública a um crime, apologia pública de um crime, dano qualificado e ofensa a pessoa coletiva”. Se quem luta pelo fim do genocídio é criminoso então ninguém conte aos senhores agentes o faz o estado de Israel…
Mas continuamos em solidariedade e resistência! A Brava – Rede de Resistência Rural em conjunto com vários grupos estão a mobilizar pessoas para participarem na consulta pública que está a decorrer até 15 de julho sobre Zonas de Aceleração de Energias Renováveis (ZAER). Este é um instrumento para licenciar projetos de energia solar e eólica de forma acelerada, sem Avaliação de Impacte Ambiental obrigatória e com prazos comprimidos. Podes saber mais aqui e na página da Brava. Há modelos que ajudam na tua participação na consulta pública aqui.
Até breve!
Nota: Todas as palavras sublinhadas são links externos, fontes de notícias, estudos, ou outras referências.

Notícias
A crise climática está a acelerar a resistência aos antibióticos em todo o mundo
Um relatório alerta que as alterações climáticas estão a acelerar o aumento da resistência aos antibióticos, com especial impacto na salmonela, uma das bactérias que mais causa infeções.
Um estudo internacional publicado na “The Lancet Planetary Health” concluiu que há uma subida global de cerca de 10% nos genes associados à resistência da salmonela entre 1940 e 2023, reforçando a ideia de que as mudanças no clima — para além do uso excessivo e inadequado de antibióticos — podem intensificar e acelerar a propagação desses genes resistentes.
A investigação analisou os genomas de mais de 480 mil amostras de salmonela recolhidas em 139 países e comparou a evolução dos genes de resistência com variações de temperatura e padrões de precipitação. Os autores referem que o efeito climático não é linear: depende da combinação entre aquecimento e chuva, o que pode favorecer a sobrevivência, mutação e troca de genes de resistência por parte da bactéria. Embora o estudo não prove causalidade direta, 82% dos países analisados registaram aumentos.
O calor associado às alterações climáticas aumenta o risco de parto prematuro em 13 países
Um estudo publicado na “Environment International” conclui que o calor durante a gravidez está associado ao aumento dos partos prematuros em diferentes países. Analisando 36,6 milhões de nascimentos ocorridos no verão, em 250 cidades de 13 países, entre 1979 e 2019, os investigadores estimam que o risco de parto antes das 37 semanas cresce de forma “linear” com a temperatura: em dias de calor moderado aumenta 2,8% e em dias de calor extremo sobe até 3,8%. No total, o estudo aponta que cerca de 1,41% dos partos prematuros no verão poderão ser atribuídos ao calor, o equivalente a 855 nascimentos prematuros extra por cada milhão.
O calor não afeta apenas os partos prematuros — pode também acelerar o início do trabalho de parto em gestações que seriam clinicamente “normais” (37–42 semanas), com maior risco nas semanas 37–38 em calor extremo.
Investigação revela esquema fraudulento nas emissões das motas em toda a Europa
Uma investigação acusa a marca KTM de contornar leis da UE e de países europeus que limitam emissões e ruído em motociclos. Repórteres infiltrados visitaram durante um ano concessionários e feiras do setor em sete países, registando relatos de como alguns distribuidores “retiram” ou anulam, após testes de homologação para uso em estrada, dispositivos legais de restrição — tornando as motos mais potentes e mais poluentes.
Segundo as imagens e gravações, há casos descritos por funcionários e concessionários como “um pouco de fraude”, com alegações de que a KTM teria concebido características apenas para cumprir requisitos iniciais, antecipando que seriam modificadas depois.
A investigação refere que pelo menos um modelo (KTM EXC 300) pode ultrapassar em mais de 10 vezes os limites de poluição e duplicar os níveis de ruído definidos por regras europeias de 2013.
Emissões dos dez maiores poluidores em Portugal sobem 7%. Galp, TAP e EDP lideram
Emissões dos dez maiores poluidores em Portugal sobem 7%. Galp, TAP e EDP lideram a lista. Centrais a gás foram o principal motor do aumento, enquanto o sector cimenteiro registou quebras assinaláveis.
A Zero, que apurou e divulgou os dados refere que a Petrogal, através da Refinaria de Sines, é o maior emissor, pelo sexto ano consecutivo. Consulta a lista completa, aqui.
Líder indígena da Nicarágua morre após três anos na prisão
Brooklyn Rivera, líder indígena nicaraguense e fundador do movimento Yatama, morreu aos 73 anos após estar detido durante quase três anos pelo regime do presidente Daniel Ortega.
De acordo com o Ministério da Saúde da Nicarágua, a morte ocorreu devido a “deterioração física e neurológica” associada a uma infeção por Covid-19.
Rivera tinha sido detido arbitrariamente em setembro de 2023 quando regressou a casa e a alegada situação de saúde só ganhou visibilidade meses mais tarde, após o regime reconhecer que estava hospitalizado em Manágua desde o início de março.
UE aprova centros de retorno na lei de migração mais rígida de sempre
A nova lei de migração da UE permite centros de repatriamento fora do bloco e buscas domiciliárias a migrantes irregulares, numa tentativa de travar entradas. Organizações da sociedade civil denunciam viragem “xenófoba” na política europeia.
Apenas os menores não acompanhados ficarão isentos de serem enviados para um centro de retorno, enquanto as famílias com crianças passam a ser elegíveis.
A Itália já aplica um esquema semelhante na Albânia, com dois centros que acolhem no total menos de uma centena de migrantes.
A lei permite ainda que os países da UE revistem o “local de residência ou outras instalações relevantes” de migrantes em situação irregular, disposição que ONG e organizações da sociedade civil comparam às polémicas rusgas conduzidas pelo Serviço de Imigração e Controlo Aduaneiro dos Estados Unidos (ICE). O período máximo de detenção legal para migrantes irregulares à espera de retorno é aumentado de seis meses para dois anos, com uma possível prorrogação de seis meses e uma duração ilimitada para pessoas consideradas uma ameaça à segurança.
Como os incêndios e as inundações estão a criar “zonas não seguráveis” em toda a Europa
Com a intensificação e aumento da frequência de fenómenos meteorológicos extremos provocados pelas alterações climáticas, estão a tornar-se mais comuns as chamadas “áreas não seguráveis”, onde o seguro de habitação se torna impossível de obter ou extremamente caro.
Este cenário surge quando as seguradoras reduzem a cobertura em zonas de alto risco ou quando os prémios sobem para níveis que a maioria dos residentes não consegue pagar.
Como exemplo, é citada a Califórnia, onde em 2024 a State Farm deixou de renovar 72 mil apólices devido ao risco de incêndios florestais e outras seguradoras já tinham suspendido ou limitado novas coberturas. Os proprietários passam então para o “seguro de último recurso”, o FAIR Plan, que cresceu de cerca de 271 mil apólices em 2022 para mais de 684 mil até março de 2026.
Dados da EIOPA (Autoridade Europeia dos Seguros e das Pensões Profissionais) referem que 75% das perdas económicas de catástrofes naturais ficam historicamente sem cobertura.
O calor já causou mais de 200 000 mortes na Europa desde 2022
Mais de 200 mil pessoas morreram na Europa desde 2022 devido ao calor, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A OMS afirma que o calor extremo afeta sobretudo crianças muito pequenas e idosos, além de pessoas com doenças cardíacas, renais e outras, e lembra que as mortes muitas vezes estão ligadas a desidratação, insolação e ao agravamento de condições preexistentes.
Temperaturas recorde registadas no Inverno na Antártida
As temperaturas na Antártida ultrapassaram 15°C em junho, numa ocorrência considerada “muito estranha” por cientistas, que quebrou o recorde de calor do inverno numa região normalmente coberta de gelo.
Segundo medições feitas pela base argentina de Esperanza, na Península Antártica (Trinity Peninsula), o pico chegou a 15,4°C em 6 de junho, com temperaturas diárias acima de zero por semanas seguidas.
O valor superou em 2°C o recorde anterior registrado no mesmo local em 1998, representando uma anomalia de cerca de 20°C acima do esperado para a época.
A dependência da Europa em relação ao gás fóssil poderá fazer subir as contas de eletricidade em até 120€ por ano
Segundo a Instituto de Economia Energética e Análise Financeira (IEEFA), um aumento de 60% nos preços da energia no atacado acima dos níveis anteriores a fevereiro de 2026 poderia acrescentar até 120 euros por ano à conta média das famílias.
O mecanismo por trás disso envolve a formação do preço da eletricidade: centrais a gás ainda determinam valores no mercado europeu por muitas horas.
O artigo também destaca que, apesar da comunicação social focar a guerra como “história de petróleo e gás”, para consumidores europeus ela aparece como “história de eletricidade”, pois além das oscilações dos preços da electricidade, fatores como stocks de gás mais baixos e a dificuldade de substituir rapidamente a geração com combustível elevam a vulnerabilidade.
Embora as renováveis e eletrificação reduzam preços, ainda faltam armazenamento em escala e flexibilidade do lado da oferta para evitar que o gás volte a definir o preço em períodos sem vento/sol. A organização refere que os subsídios estão a manter as centrais elétricas a gás europeias em funcionamento de forma artificial.
IEEFA – 09/06/2026

Eventos Extremos
Apenas identificamos eventos extremos que tenham causado mortes e/ou destruição de casas e/ou levado à evacuação de milhares de pessoas mas os eventos extremos sucedem-se em todo o mundo. Nesta página de youtube podes acompanhar vídeos de vários outros eventos extremos.
África
- Na África do Sul, a segunda tempestade em semanas, causou inundações, evacuações e 1 morto.
- Em Madagáscar, uma seca afecta centenas de milhares de pessoas.
América
- Dois sismos atingiram a Venezuela, causando mais de 900 mortes e milhares de feridos e desaparecidos.
- Cheias nas Honduras destruíram 10 casas e afectaram mais de 500 pessoas.
- Na Nicarágua, ondas de até 5 metros destruíram vários barcos, lojas e afectaram dezenas de casas.
Europa
- Em dois meses, alguns países da Europa foram atingidos por duas vagas de calor, tendo causado mais de 300 mortes em França, Itália, Espanha e Reino Unido. Vários recordes de temperatura foram batidos.
- Tempestade na Eslovénia danificou mais de 100 edifícios e provocou cortes de energia.
- Cheias na Roménia, danificaram centenas de casas.
Ásia e Oceania
- Sismo nas Filipinas matou, pelo menos, 55 pessoas e dezenas de milhares de desalojados.
- No Japão, cerca de 1 milhão de pessoas receberam ordem de evacuação devido a uma tempestade, na segunda tempestade a atingir o país em menos de 1 mês.
- Em Taiwan, chuvas torrenciais causaram 2 mortes e causaram mais de 500 ocorrências.

Relatórios e estudos científicos
Estudo revela que 80% dos rios da Terra estão a perder oxigénio rapidamente
Os níveis de oxigénio estão a baixar na maioria dos rios do mundo, colocando ecossistemas aquáticos e comunidades que dependem dessas águas sob ameaça crescente. Dados de satélite e clima recolhidos entre 1985 e 2023 mostram que em cerca de 80% dos rios, a quantidade de oxigénio dissolvido diminuiu, num total de mais de 16 mil cursos de água.
O estudo, liderado por investigadores da Academia Chinesa de Ciências, analisou 3,4 milhões de imagens de satélite e projetou o futuro em diferentes cenários climáticos.
Até ao fim do século, mantendo-se aumentos de emissões de CO₂ semelhantes ao ritmo atual, os rios em grande parte da América do Sul, Índia, Ártico e do leste dos Estados Unidos poderão perder cerca de 10% do oxigénio dissolvido. As maiores quedas já se verificam em rios tropicais, como o Ganges e o Amazonas — com o Ganges a perder oxigénio cerca de 20 vezes mais rápido que a média global — devido a águas naturalmente mais quentes e, sobretudo, ao impacto das alterações climáticas na capacidade do oceano e dos rios de “segurarem” oxigénio.
Projetos «de baixo carbono» tornam-se parte do problema dos combustíveis fósseis
Estudo publicado na revista Nature, revela que, entre as 250 maiores empresas de combustíveis fósseis, apenas 1,42% da energia renovável global está sob sua propriedade e apenas 0,01% da energia que produzem provém de fontes renováveis.
Os autores argumentam que projetos associados à transição — como biofuel, captura e armazenamento de carbono (CCS), “hidrogénio verde”, créditos de carbono e até alguns investimentos em renováveis — funcionam, na realidade, para atrasar qualquer mudança.
Com base no Global Atlas of Environmental Justice, os investigadores mapearam 48 conflitos ambientais ligados a projetos dessas empresas e concluem que, na maioria dos casos, não há substituição real dos combustíveis fósseis.
Há um novo plano que mostra como manter o planeta habitável e reduzir desigualdades
Um relatório divulgado pelo World Inequality Lab mostra que é possível evitar os piores cenários da crise climática e reduzir desigualdades.
O relatório Global Justice Report, apresenta um plano para chegar a 2100 com várias metas, entre elas aumentar os rendimentos brutos per capita mensais para 5.000 euros em todos os países, com redução das horas anuais de trabalho para cerca de 1.000 horas, e aumento do investimento em educação e saúde para 8.400 e 14.400 euros por pessoa/ano, respetivamente.
Em paralelo, o aquecimento global ficaria em torno de 1,8°C em vez de passar de 4°C, enquanto a riqueza dos 0,001% mais ricos cairia de cerca de 6% para 0,05% enquanto a metade mais pobre da população aumentaria de 2% para 30%.
Global Justice report – 04/06/2026
A IA poderá em breve consumir mais água do que a humanidade bebe, alerta um relatório da ONU
Um relatório da ONU alerta que o argumento de que a inteligência artificial (IA) vai “poupar energia” com ganhos de eficiência pode ser enganador.
A avaliação estima que, até 2030, o consumo energético da IA poderá duplicar, passando a representar cerca de 3% da eletricidade mundial, com emissões comparáveis às do Reino Unido e um aumento no uso de água para refrigeração superior às necessidades anuais de água potável da população global.
O documento explica o risco com o “paradoxo de Jevons”: quando uma tecnologia fica mais eficiente e barata, a procura tende a crescer e o consumo total do recurso pode aumentar em vez de diminuir. Além disso, destaca que os centros de dados já consomem tanta eletricidade quanto a Arábia Saudita.
Por fim, o relatório sublinha desigualdades estruturais: apenas 32 países têm infraestruturas de cloud específicas para IA (com 90% nos EUA e na China).
Science Alert – 06/06/2026
Bancos continuam a financiar combustíveis fósseis e travam a transição climática
O relatório “Banking on Climate Chaos 2026” denuncia que os maiores bancos do mundo estão a aumentar, pelo segundo ano consecutivo, o financiamento ao setor dos combustíveis fósseis.
A análise aponta que, em 2025, os 65 maiores bancos financiaram combustíveis fósseis num total que subiu em cerca de 8% face ao ano anterior, chegando a um volume adicional de 64 mil milhões de dólares.
O documento destaca um forte crescimento do financiamento as novas infraestruturas fósseis, incluindo terminais de GNL e oleodutos, com um aumento significativo face a 2024.
Os bancos dos EUA continuam a liderar o financiamento à expansão de combustíveis fósseis, com o JPMorgan Chase a destacar-se como o maior financiador, com 58 mil milhões de dólares investidos, em 2025.
Banking on Climate Chaos – Junho de 2026
Empresas aumentam o lobby em Bruxelas e pressionam a agenda política
Um relatório publicado pelo Corporate Europe Observatory e Lobby Control denuncia que o lobby empresarial na União Europeia atingiu níveis recorde em Bruxelas.
Segundo o estudo, 173 empresas e associações do setor privado, com orçamentos declarados de influência na UE de pelo menos 1 milhão de euros, gastam em conjunto cerca de 381,75 milhões de euros por ano em lobby — quase 50% mais do que em 2020 — e os autores salientam que o valor real deverá ser ainda maior, já que o registo de transparência é voluntário.
O relatório também mostra que quem mais investiu em lobby foi o setor tecnológico, que declara 73 milhões de euros anuais, à frente do setor das finanças (66,7 milhões), energia (52 milhões) e química/agroquímica (46,5 milhões).
A análise aponta ainda que a pressão política para “desregulamentar” e simplificar processos pode estar a favorecer ganhos para as indústrias enquanto a capacidade de acompanhamento e influência da sociedade civil continua a ser muito menor.
Corporate Europe Observatory – 11/06/2026

Recomendações
Artigo – Artigo do The Guardian sobre como a expansão de data centers, no Chile, está a aumentar a seca, no país.
Vídeo – “Chris Packham: Is It Time to Break the Law?” – é um documentário em que o cientista Chris Packham fala sobre ação climática e se a desobediência civil pode ser justificável quando as vias legais não estão a travar a crise ambiental.