Newsletter Abril 2026

Enquanto as guerras destroem vidas, comunidades, património e o planeta, desviando financiamento público da saúde e educação para a defesa, vivemos tempos de lucros recorde para as petrolíferas e para os bancos. Como se esta distopia não chegasse, vemos mercados de apostas sobre a guerra em ascensão. Num cenário de contínua destruição somos obrigados a pagar e ainda assistir empresas e milionários a lucrar com isso. 

E foi no cenário de guerras e crise no preço do petróleo e combustíveis que se realizou a primeira Conferência sobre a Transição para o Abandono dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta, na Colômbia. Resultado dos esforços para a elaboração de um Tratado de Não-Proliferação de Combustíveis Fósseis, a conferência foi anunciada como “um ponto de viragem histórico na diplomacia climática”. O contexto atual reforça a urgência, mas não a esperança de efetiva concretização dessa mudança. Continuemos a pressionar e a afirmar não vivemos para aumentar os lucros dos 1%.


Nota: Todas as palavras sublinhadas são links externos, fontes de notícias, estudos, ou outras referências.

Data centers têm impactos ambientais enormes e as grandes empresas de tecnologia é que escrevem as leis da U.E. sobre data centers

Pesquisas da Universidade de Cambridge indicam que os impactos ambientais e sociais dos centros de dados que alimentam a inteligência artificial são enormes.O estudo usa dados de satélite sobre mais de 6 000 instalações e descobriu que esses centros de dados aumentam as temperaturas locais em média 2ºC, criando ilhas de calor que afetam áreas até 10 km de distância e tornam a vida mais quente para mais de 340 milhões de pessoas.

Em paralelo, uma investigação europeia revela que a expansão acelerada desses centros tem sido blindada de escrutínio público por pressões de empresas de tecnologia, como a Microsoft e o lobby DigitalEurope, que conseguiram incluir na legislação da UE uma cláusula que classifica como confidenciais os indicadores ambientais de instalações individuais (por exemplo, o consumo de energia, a eficiência e o uso de água), deixando disponíveis apenas dados agregados nacionais. Está previsto que a capacidade de data centers na Europa deve triplicar nos próximos anos.

Investigate Europe – 17/04/2026

Gelo marinho do Ártico atinge o nível mais baixo de inverno de sempre

O gelo marinho do Ártico atingiu este inverno um nível mínimo empatado com a menor área já medida para a estação, com um pico de apenas 14,29 milhões km² — cerca de 1,36 milhão km² abaixo da média de 1981–2010. A redução contínua do gelo polar diminui a reflexão da luz solar, aquece os oceanos e antecipa a temporada de derretimento do gelo de verão, afetando ecossistemas e abrindo novas rotas marítimas que têm implicações geopolíticas, por exemplo ao tornar regiões como a Gronelândia mais estratégicas.

O anúncio do declínio coincidiu com ondas de calor recordes em março que bateram recordes em dezenas de países — incluindo grande parte dos EUA, México, Austrália, Norte da África e parte da Europa — enquanto, paradoxalmente, a Antártida registou um dia de março extremamente frio (-76,4 °C).

NBC News – 27/03/2026

Fortuna dos mais ricos em paraísos fiscais supera riqueza total da metade mais pobre da Humanidade

A fortuna dos mais ricos escondida em paraísos fiscais ultrapassa a riqueza da metade mais pobre da Humanidade, denunciou a Oxfam, dez anos depois do escândalo dos ‘Panama Papers’.

A Oxfam estima em 3,55 mil milhões de dólares em 2024 os montantes que escaparam aos impostos, escondidos em paraísos fiscais e contas não declaradas.  De notar que 80% da fortuna destas pessoas está em paraísos fiscais. A organização estima em 3,55 mil milhões de dólares em 2024 os montantes que escaparam aos impostos, escondidos em paraísos fiscais e contas não declaradas.

Jornal Económico – 02/04/2026

2025 foi o ano com mais incêndios de sempre na Europa

Segundo dados da Comissão Europeia, a época de incêndios começou mais cedo em 2025, já com mais de 100 000 hectares queimados no final de março.

As imagens de satélite identificaram 7.783 incêndios em 25 países da UE, sendo que no verão, a situação agravou-se, quando uma vaga de calor em agosto provocou 22 grandes incêndios em Portugal e Espanha que consumiram 460.585 hectares, quase metade do total da UE.

Comissão Europeia – 31/03/2026

No Reino Unido, pessoas continuam a ser detidas por organizarem formações

Sete membros do grupo “Take Back Power” foram detidos em Salford, acusados de conspiração para roubo, anunciou a polícia. Entre os detidos estão seis mulheres e um homem, todos mantidos em custódia para interrogatório.

Take Back Power, defende impostos mais altos sobre os super-ricos e apresenta-se como um movimento de resistência civil não violenta. O grupo acusou a polícia de reprimir formações genéricos sobre não violência.

The Guardian – 19/04/2026

Com electricidade 100% renovável Portugal pouparia na ordem dos sete mil milhões por ano

A Greenpeace lançou o relatório “Energia para viver melhor”, elaborado pelo Institute for Sustainable Futures (UTS-ISF), que apresenta um roteiro técnico para uma transição energética na Península Ibérica baseada em três pilares — suficiência, eficiência e 100% renováveis — que permitiria abandonar os combustíveis fósseis e a energia nuclear até 2040.

O estudo propõe reduzir a procura final de energia em 39% face aos níveis atuais, com cortes setoriais de 72% nos transportes, 26% na indústria e 20% nos edifícios, garantindo cobertura total por renováveis sem recurso à captura de carbono ou à energia nuclear e garantindo evitar apagões.

O estudo também refere que esta implementação, minimiza a pressão sobre minerais críticos através de suficiência e reciclagem, entre outras medidas.

Greenpeace – 20/04/2026

Bancos e fundos aumentam investimento em armas nucleares

Um relatório conjunto da ICAN e da Pax revela que 301 instituições financeiras voltaram a financiar empresas ligadas à produção e modernização de armas nucleares até setembro de 2025, um aumento de 15% face ao ano anterior que reverte anos de recuo.

Segundo o estudo, bancos, fundos de pensões e seguradoras detêm mais de 709 mil milhões de dólares em ações e obrigações de 25 fabricantes nucleares — com Vanguard, BlackRock e Capital Group entre os maiores investidores — e concederam quase 300 mil milhões em empréstimos e garantias, liderados por Bank of America, JPMorgan Chase e Citigroup.

ICAN – 24/04/2026

Análise revela que as grandes petrolíferas estão a lucrar 30 milhões de dólares por hora à custa das pessoas

Uma análise da Rystad Energy e da Global Witness, revela que as 100 maiores petrolíferas mundiais lucraram mais de 30 milhões de dólares por hora em lucros extraordinários no primeiro mês desde que os EUA começaram a bombardear o Irão. Estimativas da apontam para ganhos imprevistos de 23 mil milhões de dólares só em março, e prevêem que, se o preço médio do petróleo se mantiver em 100 dólares, as empresas obterão 234 mil milhões de dólares adicionais até ao fim de 2026.

Os analistas sublinham que esses lucros extraordinários saem dos bolsos de consumidores e empresas através de combustíveis e energia mais caros, ao mesmo tempo que muitos governos cortam impostos sobre combustíveis e perdem receita pública. Entretanto, a valorização bolsista das petrolíferas também disparou, ampliando ainda mais os ganhos para acionistas e executivos.

The Guardian – 15/04/2026

Apenas identificamos eventos extremos que tenham causado mortes e/ou destruição de casas e/ou levado à evacuação de milhares de pessoas mas os eventos extremos sucedem-se em todo o mundo. Nesta página de youtube podes acompanhar vídeos de vários outros eventos extremos. 

África

O ciclone Maila matou 22 pessoas na Papua Nova Guiné

Cheias em Angola mataram, pelo menos 45 pessoas, destruiu centenas de casas e afectou mais de 50 mil pessoas. 

No Uganda, chuvas torrenciais deixaram mais de 300 pessoas desalojadas. 

No Gana, chuvas torrenciais mataram uma pessoa e destruíram 150 casas.

Europa

Na Grécia, inundações causaram um morto e inundaram dezenas de casas. 

Na Itália, um nevão e inundações destruíram pontes e deixaram várias pessoas presas em casa. Também em Itália, um deslizamento de terras forçou evacuações. 

Fortes chuvas atingiram várias regiões da Turquia, provocando inundações, encerramento de estradas, danos em infraestruturas e em campos agrícolas. 

Inundações na Rússia, levaram a cortes de energia que afectaram mais de 370 mil pessoas. 

América

No início de Abril, chuvas torrenciais provocaram um morto na Colômbia

Chuvas torrenciais atingiram também as Caraíbas, provocando 12 mortes no Haiti e 7 mortes na República Dominicana. 

No Texas, um tornado causou 2 mortes e destruiu, pelo menos, 20 casas, enquanto uma tempestade de granizo invulgar, causou mais estragos. 

Ásia e Oceania

No Afeganistão, inundações mataram centenas de pessoas e destruíram cerca de 1500 casas. 

No Bangladesh, 14 pessoas morreram depois de terem sido atingidas por raios. 

Um super tufão Sinlaku, que surgiu meses antes da altura das tempestades, afectou as Ilhas Mariana, deixando mais de 500 pessoas desalojadas.  

No Paquistão, chuvas torrenciais provocaram 15 mortes.

Relatório: “políticas de ajustamento” do FMI, Banco Mundial causam pobreza

Um relatório da BMJ Global Health conclui que as políticas de ajustamento estrutural impostas por credores internacionais — cortes em serviços públicos, liberalização e condicionalidade fiscal — provocaram danos sociais e económicos duradouros em países do Sul global, com impactos mensuráveis na saúde, pobreza e desigualdade.

O relatório relata evidências de quedas nos salários reais e no consumo, aumentos das taxas de pobreza e da insegurança alimentar, e enfraquecimento dos sistemas públicos. Estudos citados no relatório associam reformas de austeridade a aumentos na mortalidade materna e neonatal e a reduções na cobertura vacinal (algumas estimativas apontam quedas na ordem dos dois dígitos em indicadores específicos).

BMJ Global Health – 23/03/2026

Novas simulações revelam como se originou a corrente oceânica mais forte da Terra

Novos modelos climáticos mostram que a Corrente Circumpolar Antártica (CCA), a mais forte do planeta, só se formou plenamente quando vários fatores geográficos e atmosféricos se alinharam.

Simulações do Alfred Wegener Institute indicam que, além da abertura de passagens oceânicas há cerca de 34 milhões de anos, foi decisivo o estabelecimento de ventos de oeste fortes. Só então a CCA completou o seu circuito ao redor do continente.

A consolidação da CCA contribuiu para estabilizar o clima ao manter águas mais quentes afastadas das camadas de gelo antárticas. Contudo, o aquecimento global ameaça esta dinâmica, pois a corrente tem migrado para sul e o derretimento do gelo introduz água doce que dilui a salinidade e pode desacelerar a CCA.

Science Alert – 09/04/2026

Relatório “Pessoas expostas às alterações climáticas”: dezembro de 2025 a fevereiro de 2026

Uma análise da Climate Central com o Climate Shift Index (CSI) concluiu que, entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, os efeitos das alterações climáticas tornaram-se evidentes em grande parte do planeta, sobretudo através de ondas de calor extremas.

Todos os dias desse período, mais de uma em cada seis pessoas viveu temperaturas fortemente influenciadas pelas alterações climáticas. Em 124 países — juntos quase 2,5 mil milhões de habitantes — a pessoa média enfrentou pelo menos 30 dias com temperaturas que só aconteceram graças ao aquecimento global. 

O estudo também destaca que quase 228 milhões de pessoas sofreram 30 ou mais dias de calor de risco adicionais causados pelas alterações climáticas e que 81% desse total reside em África.

Climate Central – 18/03/2026

Empresas de combustíveis fósseis mudam a sua narrativa

Um estudo da organização Clean Creatives revela que, entre 2020 e 2024, as campanhas de relações públicas e publicidade das grandes petrolíferas mudaram radicalmente e passaram de promessas de emissões líquidas zero e “somos parte da solução” para a afirmação de que a sociedade “não pode viver sem” combustíveis fósseis.

A pesquisa qualitativa “Toxic Accounts” documenta como empresas como BP e Shell, após lucros recorde em 2022, abandonaram os planos de transição, intensificaram o investimento em petróleo e gás e passaram a promover falsas soluções — captura de carbono, gás natural e biocombustíveis — que perpetuam a dependência dos combustíveis fósseis. enquanto acionistas priorizam a rentabilidade sobre a ação climática.

Clean Creatives – Abril de 2026

Poços de petróleo e gás que não estão a produzir emitem metano microbiano a taxas 1.000 vezes superiores às estimadas anteriormente

Um estudo liderado por investigadores da McGill University revela que o metano microbiano libertado por poços de petróleo e gás que não estão a produzir, no Canadá emite a taxas cerca de 1 000 vezes superiores às estimativas anteriores.

Ao analisar 401 poços — sobretudo no oeste do país, onde se concentra mais de 90% destes poços — os autores detetaram metano microbiano em 23% dos poços e traços em outros 50%, valores cerca de três vezes superiores aos relatados.

Frontiers – 17/02/2026

Alertas de calor extremo aumentaram 318% na Europa e terão causado 62.000 mortes em 2024

Um relatório da revista “The Lancet” alerta para o agravamento dos impactos do aquecimento global na saúde, com aumento acentuado da exposição ao calor, mais mortes, insegurança alimentar e doenças infecciosas. Segundo o relatório, os indicadores revelam “um aumento acentuado” dos impactos negativos na saúde, diretos e indiretos, da exposição ao calor na Europa, com quase todas as regiões monitorizadas (99,6%) a registarem um aumento do número de mortes no período 2015-2024 comparando com os anos 1991-2000. Em 2023, mais de um milhão de pessoas adicionais foram afetadas por insegurança alimentar moderada ou grave em toda a Europa, face à média anual de 1981-2010, devido ao aumento das ondas de calor e à seca.

The Lancet – 21/04/2026

ArtigoTáticas utilizadas pelas empresas de combustíveis fósseis para silenciar as críticas e obstruir a ação climática – artigo de Sophie Hartley, que detalha as táticas usadas pelas empresas de combustíveis fósseis para silenciar activistas e enganar o público. 

VídeoPower Trip: Fracking in the UK  – documentário de 63 minutos sobre a linha da frente da resistência britânica na luta para travar o fracking.

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