Nesta página encontras estas informações:
- O que se sabe sobre o gasoduto CelZa
- O projecto anterior deste gasoduto, que foi chumbado
- As nossas conclusões sobre o CelZa
- Porque é que sabemos que o Celza é para importar gás
- O que dizem os cientistas em relação ao hidrogénio
- Perguntas frequentes
- Impactos de outros projectos de hidrogénio em comunidades na África do Sul
Vamos parar o novo gasoduto CelZa
Existe um projecto para a construção de um gasoduto de 270km’s, entre Celorico da Beira e Zamora, em Espanha (dos quais 184km’s em Portugal) e a Linha Vermelha vai tricotar, informar e mobilizar para travar a construção deste gasoduto.
Vamos parar este gasoduto porque isto é apenas mais um projecto de gás fóssil, apesar de estar mascarado de “verde” e porque vivemos em crise climática. Além dos impactos locais que o gasoduto terá, não podemos permitir mais um projecto megalómano para a indústria dos combustíveis fósseis continuar a sua expansão.
O gasoduto chama-se CelZa e podes saber mais na página do projecto. O CelZa está integrado no projecto europeu H2MED. Este gasoduto já teve um projecto anterior, que era chamado MidCat mas foi chumbado.

Empresas envolvidas no projecto europeu H2Med
- Em Portugal é a REN
- A nível internacional são: Moeve, DH2, thyssenkrupp nucera, Elyse energy, HDF, Hynamics, QAIR, SEFE, SHS-Stahl-Holding-Saar, Copenhagen Infrastructure Partners, Enagas, GRTgaz, OGE e Teréga.
O que sabemos mais sobre o CelZa
- Já tem fundos europeus assegurados, nomeadamente 7.2 Milhões de euros (fonte)
- Já tem denominação de “projecto de interesse comum”, o que permite acesso a fundos públicos que deveriam servir para mitigar e adaptar às alterações climáticas
- No 4º trimestre de 2026 vai haver uma consulta pública sobre o Estudo de Impacto Ambiental
O projecto europeu (H2Med)
O projeto H2med é composto por dois gasodutos transfronteiriços:
- CelZa: gasoduto que conecta Portugal e Espanha (Celorico da Beira – Zamora)
- BarMar: gasoduto offshore (submarino) que conecta Espanha e França (Barcelona – Marseille)
| CelZa | BarMar | |
| Comprimento do gasoduto | 270 km | 400 km |
| Diâmetro | 28″ | 42″ |
| Custo | ≈ 350 milhões de euros | ≈ 2135 milhões de euros |

Antes do CelZa, existiram planos para construir o gasoduto MidCat. Este projecto foi chumbado e surge agora com um novo nome e mascarado de “verde”, pois os promotores do projecto dizem que é para transportar hidrogénio verde. Porém a restante rede de gasodutos em Portugal não está preparada para transportar 100% de hidrogénio, nem tão pouco existe produção de hidrogénio verde em Portugal para viabilizar um gasoduto que transporte 100% hidrogénio que, ainda por cima, é destinado à exportação.
O projecto anterior foi “chumbado pelos reguladores espanhóis e franceses, devido ao impacto ambiental e aos custos da obra. Este projecto enfrentou forte oposição de várias organizações e empresas pois o mesmo “atravessa o Alto Douro Vinhateiro (ADV) numa extensão aproximadamente de 55 km, junto ao Monte Meão, bem como uma área considerável da Zona Especial de Protecção nos concelhos da Meda, Vila Nova de Foz Côa, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Alfândega da Fé””. (fonte)
- O CelZa serve para importar gás fóssil e não para descarbonizar
- O hidrogénio pode servir para descarbonizar indústrias específicas mas não é isso que o projecto do gasoduto propõe fazer
- Não é eficiente transportar hidrogénio
- É caro produzir hidrogénio
- Não há produção de hidrogénio suficiente para ter um gasoduto 100% hidrogénio, ainda para mais com o intuito de o exportar
- A rede nacional de gasodutos não comporta transportar 100% hidrogénio
- Em plena crise climática, utilizar fundos públicos para um projecto que não seja para investir em 100% energia renovável, é um disparate
- Utilizar fundos públicos para um projecto que só vai aumentar a importação de gás fóssil é outro disparate
- Produzir hidrogénio, mesmo que verde, não reduz emissões, por si só
- Construir um gasoduto para transportar, maioritariamente, gás fóssil em territórios que são, frequentemente afectados por incêndios é um crime social e climático. A ironia é maior quando sabemos que, por exemplo, os incêndios de 2025 na península ibérica foram 30% mais intensos e a sua probabilidade aumentou em 40%, devido às alterações climáticas.
“Na provável situação de o gasoduto estar pronto, mas sem hidrogénio verde suficiente para preenchê-lo, a mistura de hidrogénio verde com gás fóssil pode ser usada como estratégia para justificar o investimento na infraestrutura”. (fonte)
“Por exemplo, em Portugal, dezenas de projetos focam-se na produção de hidrogénio verde para autoconsumo ou produção de derivados. Contudo, praticamente nenhum contempla a exportação através do gasoduto, nem estão localizados no ponto inicial do CelZa. Além disso, a REN propõe atualizar a rede de gasodutos para uma compatibilidade de mistura de 10% de hidrogénio (em volume), mantendo-a incompatível com 100% hidrogénio, o que levanta o risco de o CelZa ser usado como extensão da rede de gás fóssil” (fonte)
- Em 2024, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu disse que a Europa deveria lidar com um segundo mandato de Trump com uma “estratégia de livro de cheques” em que se oferecesse “comprar certas coisas aos Estados Unidos”, como gás natural liquefeito e equipamento de defesa (fonte)
- Também em 2024, o Trump ameaça a U.E. com sanções se não comprarem mais gás aos EUA (fonte)
- Já em 2025 o comissário europeu de Energia, Dan Jørgensen, colocou a hipótese de a União Europeia importar mais gás dos EUA, como sugeriu Donald Trump para reduzir as tarifas (fonte)
- O lobby do hidrogénio, na Europa esteve muito activo nos últimos anos: Os 25 principais grupos de lobby de hidrogénio gastam 75,7 milhões de euros por ano em lobby junto das instituições da UE Isto é mais do que os principais lobbies das grandes empresas tecnológicas (43,5 milhões de euros) e da grande finança (38,75 milhões de euros). Um relatório recente da CEO, também revela que 99% do hidrogénio produzido globalmente é produzido a partir de combustíveis fósseis (fonte)
- Relatório da “Institute for Energy Economics and Financial Analysis” que diz que a U.E. está dependente do gás dos EUA (LNG) substituindo assim o gás da Rússia (fonte)
Um estudo publicado na revista Nature, revela, entre outras coisas que:
- as propriedades físicas do hidrogénio – a sua baixa densidade energética, inflamabilidade e propensão para a fuga e fragilização de metais – impõem desafios em termos de custos, segurança e aceitação em todas as fases;
- durante décadas, as previsões de uma economia do hidrogénio basearam-se no rápido aumento de escala que faz baixar os custos. No entanto, os custos de produção são dominados por factores de engenharia e energia e complementados pelos custos de transporte, armazenamento e utilização; nenhum deles parece suscetível de apresentar as rápidas reduções observadas com a energia solar fotovoltaica e as baterias;
- para contribuir para os objectivos de descarbonização, o hidrogénio verde deve ter baixas emissões em toda a sua cadeia de abastecimento. As avaliações a nível do sistema identificam problemas com as emissões de gases com efeito de estufa a montante e consequentes da produção de hidrogénio verde, juntamente com impactos ambientais mais amplos. Devem ser cumpridas várias condições prévias para fornecer hidrogénio sustentável e limpo ao longo de todo o seu ciclo de vida;
- a curto prazo, a eletricidade renovável poderia conseguir uma maior redução das emissões se fosse utilizada diretamente para substituir os combustíveis fósseis na produção de energia, no aquecimento ou nos transportes, em vez de ser utilizada para a produção de hidrogénio verde;
- a longo prazo, o hidrogénio poderia, pelo contrário, facilitar a adoção de energias renováveis, integrando a produção excedentária nos sistemas de energia;
- o hidrogénio com baixo teor de carbono será essencial para descarbonizar a indústria petroquímica e os fertilizantes (~2% das emissões globais de CO2), ou em aplicações em que as alternativas de descarbonização são proibitivamente caras, como a siderurgia, os transportes pesados e o armazenamento de energia de longa duração. As estratégias para o hidrogénio devem dar prioridade e apoiar estas áreas para obter o maior impacto possível.
Num artigo de 2022, uma equipa de cientistas norte-americanos alerta que o hidrogénio tem um efeito de gás de estufa, ainda que de forma indireta, não podendo o seu potencial contributo para o aquecimento global ser desprezado. Apesar de o seu tempo de vida na atmosfera ser extremamente curto, o hidrogénio tem um efeito determinante, ao aumentar o tempo de vida do metano na atmosfera – o principal gás causador de efeito de estufa a seguir ao CO2. Ainda segundo este artigo, uma taxa de fuga de hidrogénio de 10%, pode reduzir para cerca de metade a vantagem do hidrogénio verde em relação ao uso de combustíveis fósseis, isto num horizonte temporal de duas décadas. Não se trata aqui de diabolizar esta tecnologia, mas somente de salientar que esta possui riscos que têm sido pouco discutidos ou avaliados.
Já um outro estudo, encomendado pelo governo britânico, revelou que existem enormes incertezas
sobre qual irá ser a percentagem de fugas de hidrogénio, caso este gás assuma um papel muito
maior no sistema energético. As incertezas são de várias ordens, incluindo:
- o volume de hidrogénio a ser produzido mundialmente;
- a sua interação com diferentes materiais, bem como as taxas de emissão, que o relatório considerou nos seus modelos variarem entre 4% e 23%
P: Então mas não é preciso descarbonizar? Como é que se descarboniza sem o gasoduto?
R: A pergunta correcta deve ser: mas como é que o CelZa descarboniza? “O projeto H2Med exigirá uma grande instalação de projetos de energia renovável em larga escala. Em Portugal, a produção do volume previsto de hidrogénio verde necessitará de cerca de 6-7 GW de capacidade de eletrólise, ultrapassando as metas estabelecidas no Plano Nacional de Energia e Clima, que prevê 3 GW. Seriam necessários ainda 14-17 GW de nova capacidade de energia renovável, o dobro da energia renovável instalada em Portugal até 2023. No total, para atingir as 2 milhões de toneladas de hidrogénio por ano previstas para o H2Med, seriam necessários 40 GW de nova capacidade renovável na Península Ibérica. Esta expansão pode comprometer uma transição energética justa, uma vez que o desenvolvimento atual de renováveis carece de planeamento, dimensionamento, coordenação territorial e de uma infraestrutura capaz de suportar tamanha quantidade de energia renovável, levando à competição destes recursos para a transição energética”. (fonte)
P: O que é hidrogénio verde? como é que é produzido?
R: O hidrogénio verde é gerado através da eletrólise da água (decomposição química da água (H2O) em oxigênio (O2) e hidrogênio (H2)), que é feito usando eletricidade gerada por energias renováveis.
P: O transporte de hidrogénio é seguro?
R: “O transporte de hidrogénio, devido às propriedades físico-químicas do mesmo, acarreta altos riscos de fugas, com impactos climáticos elevados, dado que este é um gás com efeito de estufa indireto, aumentando o tempo de vida do metano na atmosfera.” (fonte).
P: O transporte de hidrogénio é eficiente?
R: “O hidrogénio verde não é uma forma eficiente de transportar ou produzir energia, devido às perdas energéticas significativas em cada etapa do processo, incluindo eletrólise, compressão e transporte. A eletrólise tem uma eficiência de 60-70%, enquanto que a compressão e transporte consomem também grandes quantidades de energia. Quando hidrogénio ou e-fuels são reconvertidos para eletricidade, a eficiência é de cerca de 60-70%, para geradores a combustão.” (fonte)
P: Já existe produção de hidrogénio verde em Portugal?
R: A EDP tem vários projectos em fase avançada, mas não pode progredir devido à falta de compradores, afirmou Ana Quelhas, directora de hidrogénio da EDP e co-presidente da Renewable Hydrogen Coalition, em entrevista ao Público. Na reportagem do Público denominada “Vale de desilusão”: projectos de hidrogénio verde estão a recuar em Portugal e no mundo o jornal refere que a produção de hidrogénio verde é cara, que tem expectativas exageradas, que é um “suicídio económico” e que há dificuldades ao nível de infraestrutura.
P: Qual é o benefício para as regiões e para o país?
R: Os promotores do projeto dizem que vai “permitir a descarbonização das principais empresas industriais ao longo do seu percurso em Portugal, Espanha, França e em direção à Alemanha.” Mas em nenhum lado dizem que indústrias e com que tipo de hidrogénio. Em relação a postos de trabalho, os promotores indicam que “para o H2med (CelZa e BarMar), estima-se a criação de cerca de 1 700 novos postos de trabalho durante a construção e 300 na fase de exploração e manutenção“. (fonte) O gasoduto BarMar é um projeto de gasoduto offshore de 400 km que ligará Barcelona (Espanha) ao polo industrial de Fos-sur-Mer, perto de Marselha (França). Enquanto isto, “um relatório do Tribunal de Contas Europeu alerta para o risco de infraestruturas de grande escala se tornarem desnecessárias no futuro, potencialmente sobre-dimensionadas, não amortizadas e incapazes de responder às reais necessidades da transição energética. O relatório critica as metas de produção e importação de hidrogénio verde definidas pela Comissão Europeia — 20 milhões de toneladas até 2030 — como sendo motivadas politicamente, sem análises rigorosas. Estima-se que a procura esperada não ultrapasse 10 milhões de toneladas até 2030, muito abaixo da meta inicial”.
P: Já há países a produzir hidrogénio? E qual a quantidade de produção de hidrogénio verde?
R: A maior parte dos projectos ainda está em desenvolvimento mas a China e a Alemanha são os que já têm maior capacidade de produção instalada. O total de produção de hidrogénio verde é de 1% de todo o hidrogénio produzido a nível mundial. (fonte) “No final de 2021, quase 47% da produção global de hidrogénio provinha do gás natural, 27% do carvão, 22% do petróleo (como subproduto) e apenas cerca de 4% da eletrólise. A eletricidade tinha uma quota média global de energias renováveis de cerca de 33% em 2021, o que significa que apenas cerca de 1% da produção global de hidrogénio é produzida com energias renováveis.” (fonte) Em Novembro de 2025, a Hydrogen Europe (a principal associação que representa as empresas de hidrogénio afirmou que “que a UE está a caminho de ficar a mais de 90 % aquém da meta de hidrogénio verde para 2030” (fonte)
P: Qual é o impacto do hidrogénio verde no aquecimento global?
R: Um estudo, publicado na revista Nature, indica que o impacto do hidrogénio no aquecimento global tem sido «negligenciado» nas projeções sobre as alterações climáticas. Acima de tudo, pelo impacto que tem em no metano, pois aumenta o tempo de vida do metano na atmosfera. (fonte)
Na África do Sul a corrida ao hidrogénio verde impacta as comunidades da linha da frente que são afectadas pelo extractivismo verde da U.E. – Sabe mais neste relatório do Corporate Europe Observatory ou neste documentário de 30 minutos.