Newsletter Janeiro 2026

Olá! Após uma interrupção durante grande parte de 2025, a Linha Vermelha está de volta, tal como a nossa newsletter. Queres ajudar a Linha Vermelha a continuar a lutar por justiça climática em 2026? Escreve-nos para info@linhavermelha.org 🙂

Como é próprio da época, aproveitamos para olhar para o ano que passou e preparar o que aí se avizinha:

  • Aqui podes encontrar 10 das principais descobertas da ciência climática em 2025;
  • 2025 voltou a ser um dos anos mais quentes de sempre e o terceiro consecutivo que ultrapassa os 1,5º C acima da temperatura média pré-industrial (Público, 14-01-2026); 
  • As petrolíferas continuam os seus projetos destrutivos, assim como as campanhas de Greenwashing (Center for Climate Integrity);
  • Na Palestina, nos Estados Unidos da América, no Mediterrâneo, no Congo e por todo o mundo, os Estados continuam a matar jornalistas, crianças, pessoas pobres, migrantes e qualquer uma que ouse resistir ao fascismo que continuam a abraçar. 

É difícil rematar esta reflexão com um apelo à esperança e solidariedade, parece desligado de uma realidade que se mostra todos os dias imensamente violenta e destrutiva de qualquer tentativa de a transformar. Ainda assim persistimos na vontade de as concretizar, de criar redes de apoio, de aprender coletivamente, de lutar pela liberdade de todas.

Nota: Todas as palavras sublinhadas são links externos, fontes de notícias, estudos, ou outras referências.

Notícias

Nos Estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental vai deixar de considerar os impactos para a saúde nas suas licenças

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) anunciou mudanças na forma como avalia os impactos económicos das suas regulamentações sobre a poluição do ar. A EPA anunciou que não irá considerar mais o valor em dólares das vidas salvas e dos problemas de saúde evitados devido à poluição do ar causada por partículas finas. Essa alteração, que enfraquece as regras de controlo de poluição e na queima de combustíveis fósseis, tem levantado muitas preocupações entre especialistas de saúde pública. 

Especialistas em saúde alertam que a alteração pode agravar os riscos para a saúde, especialmente para pessoas com doenças respiratórias crónicas, crianças e idosos. A poluição por partículas finas, cuja origem está frequentemente ligada à queima de combustíveis fósseis, está associada a sérios problemas de saúde, incluindo asma, ataques cardíacos e até a mortes prematuras.

The Guardian – 14/01/2026

Banco de Desenvolvimento dos Países Baixos foi negligente, refere relatório sobre a morte da ativista Berta Cáceres

O assassinato da ativista ambiental indígena Berta Cáceres, que aconteceu há quase 10 anos nas Honduras, está ligado a uma operação criminosa organizada que utilizou fundos do Banco de Desenvolvimento dos Países Baixos (FMO) para financiar atividades ilegais. Esta conclusão foi destacada num relatório de uma investigação publicado por uma comissão independente criada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, pelo Estado hondurenho e pelos familiares de Cáceres, que lutou contra a construção da barragem Agua Zarca.

O relatório indica que a falta de eficácia na implementação de regras de prevenção de fraudes e lavagem de dinheiro por parte do FMO facilitou o desvio de 67% dos seus financiamentos para atividades ilegais, incluindo operações de vigilância e armadas que culminaram na morte de Berta Cáceres.

Both Ends – 13/01/2026

Calor nos oceanos atinge novo recorde em 2025

Em 2025, os oceanos do mundo absorveram quantidades recordes de calor. Desde o início do milénio, quase todos os anos estabeleceram novos recordes de temperatura nos oceanos. 

Um relatório publicado na revista “Advances in Atmospheric Sciences” revela que o aumento da temperatura nos oceanos intensifica furacões e tufões, provoca chuvas mais intensas e inundações, além de contribuir para a subida do nível do mar.

A quantidade de calor absorvida pelos oceanos é equivalente a mais de 200 vezes a quantidade total de eletricidade utilizada pelos seres humanos em todo o mundo.

The Guardian – 09/01/2026

Metade das 100 maiores cidades do mundo estão em áreas com elevado stress hídrico

O stress hídrico ocorre quando a procura por água para abastecimento público e indústria estão perto de exceder a oferta disponível. Esta aproximação é frequentemente exacerbada pela má gestão dos recursos hídricos e pelas alterações climáticas. Entre as cidades mais afetadas estão Beijing, Nova York, Los Angeles, Rio de Janeiro e Delhi, enquanto Londres, Bangkok e Jacarta também enfrentam níveis elevados de stress hídrico.

Teerão, que está no seu sexto ano de seca, aproxima-se do dia em que não terá água disponível para os seus cidadãos. O Banco Mundial alerta que as reservas globais de água doce caíram significativamente nos últimos 20 anos, com uma perda estimada de 324 mil milhões de metros cúbicos anualmente, suficiente para atender às necessidades anuais de 280 milhões de pessoas.

Guardian – 27/01/2026

A riqueza dos bilionários cresceu três vezes mais rápido em 2025

Os bilionários do mundo viram a sua riqueza aumentar em mais de 16% em 2025, atingindo 18,3 triliões de dólares, o maior nível já registado, segundo um novo relatório da Oxfam. Este crescimento é três vezes mais rápido do que a média dos últimos cinco anos. Enquanto isso, uma em cada quatro pessoas enfrenta insegurança alimentar e quase metade da população global vive em situação de pobreza extrema.

O relatório intitulado Resisting the Rule of the Rich: Protecting Freedom from Billionaire Power regista que a riqueza dos bilionários aumentou em 2,5 triliões de dólares, valor que quase iguala a riqueza total da metade mais pobre da humanidade, ao mesmo tempo que um quarto dos países restringiu liberdades de expressão no último ano.

Oxfam – 19/01/2026

Colapso do Vórtice Polar produz uma grande disrupção climática

O vórtice polar é uma vasta zona de baixa pressão e ar gelado que circula na estratosfera (a 10-50 km de altitude) acima do Ártico e da Antártida, que ajuda a manter o frio extremo nos pólos.

Novas previsões confirmam que um colapso do Vórtice Polar ocorrerá em meados de fevereiro, após um evento de aquecimento estratosférico. As últimas previsões indicam que esse colapso resultará num padrão prolongado de frio intenso na América do Norte e Europa, que se poderá estender até o início da primavera.

Embora o colapso principal esteja previsto para meados de Fevereiro, na América do Norte já estão a ser sentidos os efeitos antecipados de uma disrupção pré-colapso. Um núcleo deformado e alongado do Vórtice Polar está a despoletar temperaturas frias para o centro e leste dos EUA, com previsão para algumas regiões terem quedas de temperatura de cerca de 17°C abaixo do normal.

Severe Weather – 30/01/2026

Apenas identificamos eventos extremos que tenham causado mortes e/ou destruição de casas e/ou levado à evacuação de milhares de pessoas mas os eventos extremos sucedem-se em todo o mundo. Nesta página podes acompanhar vídeos de vários outros eventos extremos. 

África

Pelo menos 103 pessoas morreram e 173 000 foram afetadas pelas cheias em Moçambique. Cerca de 1160 casas foram destruídas e mais de 4 000 foram parcialmente inundadas. 

A seca na Etiópia dura há mais de 8 meses e afeta 50% das colheitas.

Europa

Inundações no sul de Espanha causam um morto e dois desaparecidos. 

Uma tempestade matou duas pessoas na Grécia e a vila de Korfos, com cerca de 300 habitantes, ficou completamente submersa. 

Um trecho de 4 km de falésia desabou na ilha italiana da Sicília, após ser atingido pelo vento e pela chuva trazidos pela tempestade Harry e mais de 1.000 residentes foram evacuados das suas casas.

Em Portugal, a tempestade Kristin causou cinco mortes, deixou dezenas de pessoas desalojadas e quase 1 milhão de pessoas sem eletricidade. 

Ásia e Oceania

Na Austrália, fogos queimaram mais de 400 000 hectares de terra, destruíram centenas de estruturas e mataram uma pessoa.

Na Nova Zelândia, deslizamentos de terras causaram o desaparecimento de seis pessoas entre os 15 aos 71 anos. 

América

Incêndios florestais no sul da Argentina queimaram mais de 15.000 hectares levando à evacuação de aproximadamente 3.000 turistas e à destruição de pelo menos 10 casas pelo fogo.

No Chile foi decretado estado de catástrofe devido a fogos que mataram, pelo menos 18 pessoas, fizeram evacuar 50.000 e destruíram cerca de 250 casas.

Uma tempestade de neve na América do Norte causou, pelo menos, 30 mortos. 

Estudos Científicos e Relatórios

Como os 0,1% mais ricos estão a condenar o mundo ao desastre

Um novo relatório da Oxfam revela vários números que mostram a desigualdade na responsabilidade na crise climática: 

  • Desde o Acordo de Paris em 2015, os 1% mais ricos do mundo consumiram mais do que o dobro do orçamento de carbono do que toda a metade mais pobre da humanidade em conjunto;
  • Desde 1990, a quota-parte das emissões dos 1% mais ricos aumentou 13% e a quota-parte do 0,1% mais rico aumentou 32%, enquanto a quota-parte dos 50% mais pobres diminuiu 3%;
  • Para permanecer dentro do limite máximo de 1,5 °C de aquecimento global, a Oxfam projeta que os 1% e 0,1% mais ricos precisam de reduzir as suas emissões per capita em 97% e 99%, respetivamente, até 2030;
  • Uma pessoa dos 0,1% mais ricos emite mais num único dia do que uma pessoa nos 50% mais pobres emite em todo o ano.

Oxfam – Outubro de 2025

Os “projetos verdes” das petrolíferas prolongam os combustíveis fósseis

Um estudo da Universidade de Susex denuncia que muitos dos chamados “projetos verdes” impulsionados pela indústria de petróleo e gás não estão projetados para substituir os combustíveis fósseis, mas sim para estender sua vida útil.

O estudo, baseado em 48 conflitos socio-ambientais documentados em diferentes continentes, conclui que esses projetos não cumprem os objetivos climáticos prometidos, agravam as desigualdades sociais e reforçam o poder político e económico das mesmas empresas responsáveis pela crise climática.

Segundo os autores, isto não são contradições isoladas, mas são uma estratégia: conectar novas instalações “baixas em carbono” com refinarias, gasodutos e centrais termoelétricas já em funcionamento, o que justifica continuar a explorar os “ativos” fósseis durante décadas.

Um exemplo é o gasoduto H2Med entre Barcelona e Marselha, apresentado como infraestrutura para hidrogénio, mas projetado para transportar também gás fóssil, prolongando assim o tempo de utilização de infraestruturas que deveriam estar a ser desmanteladas ou descontinuadas.

Science Direct – Dezembro de 2025

Relatório revela como as emissões da aviação podem ser reduzidas em metade sem diminuir as viagens

Esta redução de 50% pode acontecer se a indústria eliminar os lugares premium, garantindo voos quase lotados e utilizando aviões mais eficientes. De acordo com o relatório, que examinou mais de 27 milhões de voos comerciais em 2023, essas medidas de eficiência podem ser mais eficazes do que compromissos com combustíveis “sustentáveis” ou compensações de carbono.

Embora as emissões de dióxido de carbono por quilómetro percorrido tenham diminuído com o aumento da eficiência dos aviões, o crescimento no número de voos tem superado essa redução, resultando num aumento geral das emissões. O estudo identificou que voos mais poluentes eram mais comuns em aeroportos menores na América do Norte e na Austrália, enquanto que aeroportos na Índia, Brasil e Sudeste Asiático apresentaram voos menos poluentes.

O relatório também refere que o transporte aéreo, muitas vezes considerado eficiente, é na verdade ineficiente devido a fatores como o uso de aviões antigos e a baixa ocupação dos voos. Com o modelo proposto no relatório – de aviões com lugares somente de classe económica e uma taxa de ocupação de 95%, o relatório estima que seria possível reduzir o uso de combustível e as emissões entre 50% e 75%.

Nature – 07/01/2026

0,001% da População Mundial tem três vez mais riqueza do que a metade mais pobre

Um novo estudo do World Inequality Report 2026 revela que apenas 0,001% da população mundial, menos de 60.000 pessoas, detêm três vezes mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade. Os dados, compilados por 200 pesquisadores, mostram que os 10% mais ricos ganham mais do que os outros 90% juntos, enquanto a metade mais pobre recebe menos de 10% dos rendimentos globais. A concentração de riqueza é ainda mais alarmante do que a desigualdade por rendimentos, tendo em conta que os 10% mais ricos possuem 75% da riqueza global, enquanto os 50% mais pobres têm apenas 2%.

O relatório refere também que a parcela da riqueza global controlada pelos 0,001% cresceu de quase 4% em 1995 para mais de 6% em 2025.

Guardian – 10/12/2025

Em todos os dias de 2024, os incêndios florestais consumiram mais de 360 quilómetros quadrados de floresta – uma área maior do que Malta

Investigadores da Universidade de Maryland indicam que os incêndios florestais agora queimam mais do que o dobro das florestas anualmente em comparação com 20 anos atrás. O aumento da atividade dos incêndios tem batido recordes: quatro dos cinco piores anos, no que diz respeito a incêndios florestais ocorreram desde 2020. O ano de 2024 foi o mais extremo com pelo menos 13,5 milhões de hectares de florestas queimadas, superando o recorde anterior de 11,9 milhões de hectares em 2023.

Estima-se que o fumo dos incêndios é responsável por mais de 1,5 milhões de mortes anualmente. Entre 2023 e 2024, os incêndios representaram quase metade (44%) da perda de florestas, um aumento significativo em relação à média de um quarto entre 2001 e 2022.  

Guardian – 13/01/2026

A energia solar em telhados na UE tem potencial para satisfazer 40% da procura de eletricidade num cenário 100% renovável para 2050

Um novo estudo, publicado na revista Nature, revela que os telhados dos 271 milhões de edifícios na União Europeia podem gerar uma capacidade total de 2,3 TWp de energia solar, o que corresponderia a cerca de 40% da procura num cenário 100% renovável até 2050. Isto corresponde a oito milhões de edifícios, com área superior a 2.000 m², que podem gerar 355 GWp.

Atualmente, apenas 10% dos telhados na Europa estão equipados com painéis fotovoltaicos.

Nature – 12/01/2026

DocumentárioDocumentário da DW “Climate change-Averting catastrophe” onde acompanham a luta de alguns ativistas climáticos. 

ArtigoArtigo da Sapo – como a Linha de Cascais perdeu 80 comboios por dia em menos de 20 anos

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